Livro - O Tarô Mitológico de Juliet Sharman-Burke e Liz Greene

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

OS ARCANOS MENORES

Os Quatro Naipes

Os quatro naipes do Taro - simbolizados pela Taça (Copas), Bas­tão (Paus), Espada (Espadas) e Pcntáculo (Ouros) - são descrições, no sentido da forma, de experiências em quatro diferentes dimen­sões ou fases da vida. Tal como os antigos quatro elementos da filo­sofia grega, dos quais se acreditava que todas as coisas manifestas fossem criadas, os quatro naipes englobam cada faceta das expe­riências da vida. Em certo sentido, eles revelam, com maior detalhe e em um nível mais pessoal, a jornada arquetípica retratada pelas 22 cartas dos Arcanos Maiores. Cada naipe focaliza um determinado aspecto do ciclo global e o examina por meio de diferentes e detalha­das fases de desenvolvimento.

Cada naipe dos Arcanos Menores pode ser dividido em dois gru­pos: as cartas numeradas, das quais há dez cartas cm cada naipe, e as cartas da corte, das quais há quatro em cada naipe. Por intermé­dio das cartas numeradas, podemos vislumbrar as experiências coti-dianas da vida, que nos acometem por meio de acontecimentos, do tratamento com outras pessoas e por meio de estados passageiros da mente ou do sentimento. Cada uma das cartas numeradas reflete uma experiência típica ou arquetípica e, mais cedo ou mais tarde, durante o transcorrer da vida, nós nos encontramos em cada um desses pequenos cenários. É por isso que as cartas numeradas são, de forma geral, interpretadas de um ponto de vista divinatório como reflexos de fatos ou acontecimentos no mundo exterior, embora elas sejam, na realidade, tão "psicológicas" quanto as cartas dos Arcanos Maiores.

As cartas da corte que pertencem a cada naipe - Pajem, Cava­leiro, Rainha e Rei diferem das cartas numeradas, porque elas não descrevem realmente fatos ou experiências, mas representam tipos de caráter ou dimensões de uma determinada fase da vida que po­dem ser descritos como figuras humanas. Apesar de se apresenta­rem de modo hierárquico, elas têm o mesmo valor, porém o diferente grau de poder material indica o seu diferente grau de consolidação no mundo exterior.
Os Pajens em todos os naipes dos Arcanos Menores são imagens dos jovens, inícios delicados das qualidades do específico naipe. Em outras palavras, essa é a parte primitiva daquela fase da vida em sua forma juvenil, frágil e incipiente, precisando de cuidado e proteção para que as suas qualidades se desenvolvam totalmente.

Os Cavaleiros são imagens da fase adolescente volátil e energé­tica das qualidades do específico naipe. Esse é o espírito jovem, ener­gético e buscador que nos impulsiona a explorar e a experimentar aquela particular fase da vida.
As Rainhas em todos os quatro naipes são imagens das qualida­des estáveis e receptivas de uma fase específica da vida. Aqui a energia e o anseio não fluem mais com tanto abandono no ambiente - é o que a Psicologia* chamaria de acting-out (psicodrama) -; ao contrário, cies são mantidos interiormente, contidos e concentrados para que uma força maior possa emergir. Aqui os valores do indiví­duo são formados e encenados pelas únicas figuras femininas das cartas da corte.

Os Reis em todos os quatro naipes são imagens das qualidades dinâmicas, expansivas e diretivas do naipe específico. Essas podero­sas figuras masculinas representam o uso total das energias dessa fase de vida para construir e concretizar no mundo exterior.

As personalidades arquetípicas das cartas da corte não descre­vem qualidades pertinentes unicamente a homens ou a mulheres, apesar de as imagens serem definitivamente sexuadas. Ao contrário, esses rostos masculinos e femininos implicam qualidades de energia receptivas ou diretivas: masculino e feminino em um nível mais pro­fundo e disponível a homens e mulheres. Essas figuras são maiores do que as das cartas numeradas dos Arcanos Menores, embora não tão abrangentes e profundas quanto as figuras dos Arcanos Maiores.

A Rainha de Ouros, por exemplo, compartilha algumas das qualidades terrenas da Imperatriz, mas incorpora todas as amplas e pro­fundas dimensões da Mãe do Mundo.

A Rainha de Copas comparti­lha alguns atributos intuitivos tanto da Sacerdotisa quanto da Lua; mas essas duas últimas são maiores, porque as profundezas do in­consciente contêm mais do que simplesmente as intuições e os sentimentos passionais encenados pela Rainha de Copas.

As cartas da corte contem seu próprio mistério, porque, frequen­temente, elas penetram na vida do indivíduo não somente como uma experiência interior, mas como pessoas reais. Aqui voltamos ao enig­ma do que a Psicologia chama de sincronicidade, porque, quando algo está maduro para ser desenvolvido dentro de nós, muitas vezes o encontramos no mundo exterior; e quando estivermos a caminho de nos tornar um certo tipo de pessoa e precisarmos desenvolver certas qualidades internas, frequentemente essa exata pessoa apa­rece "externamente" como um catalisador do qual podemos aprender mais sobre nós mesmos.

Muitos relacionamentos acontecem em nossas vidas, porque a outra pessoa incorpora algo que nós, com o tempo, devemos aprender a interiorizar. Dessa forma, as cartas da corte abrangem os domínios da psique e da matéria de maneira perturbadora, pois esses tipos de personalidades podem entrar em nossas vidas como pessoas, além de descrever qualidades que nós mesmos estamos cm processo de desenvolver.

Os naipes de Copas correspondem ao antigo elemento água que, como diziam, deu origem à vida. A água é fluida, sem forma, mutável e vaga, mas tão real e poderosa, à sua maneira, quanto rocha sólida. Os ritmos e as profundezas do mar são maravilhosos, mas perigosos. Assim também é o mundo do sentimento, pois, apesar de os sentimen­tos mudarem e assumirem sua coloração de acordo com a situação que os cercam, eles possuem seu próprio ritmo, realidade e poder.

As 14 cartas do naipe de Copas descrevem o desenvolvimento dos sen­timentos durante a vida, as maneiras típicas pelas quais as nossas emoções mudam e se aprofundam por meio de experiências huma­nas características, do catalisador de outras pessoas e dos tipos de caráter que incorporam o mundo do sentimento em sua forma mais pura. O símbolo da copa sempre foi associado ao coração, pois o fluido que contém é o mundo fluido do sentimento. Quer seja essa a água clara do amor espiritual ou o vinho vermelho-sangue da paixão, a copa da qual bebemos é o veículo pelo qual experimentamos o relacionamento.

O naipe de Paus corresponde ao antigo elemento fogo que, como diziam, surgiu espontaneamente do nada e podia alterar e transfor­mar tudo o que tocava sem mudar a si mesmo. O fogo é volátil, um transformador de formas, nem sólido nem líquido, mas um catalisa­dor que reduz objetos aos seus mais básicos componentes, transfor­mando a sua natureza. Assim também é o mundo da imaginação criativa, que pode produzir imagens do nada e que transforma obje­tos no mundo concreto e "real", incutindo neles significado e objeti-vo, embora a própria imaginação permaneça inatingível. O símbolo do bastão (naipe de Paus) é relacionado com a vara do mágico que, por meio do misterioso poder da imaginação, pode conjurar objetos a existir e pode perceber ligações que a mente comum não pode en­xergar.

As 14 cartas do naipe de Paus descrevem o desenvolvimento da imaginação criativa e dos desafios com os quais nos deparamos no mundo exterior, sua utilidade, os perigos da insensata imaginação excessiva e os personagens típicos que incorporam mais puramente o domínio da imaginação.

O naipe de Espadas corresponde ao antigo elemento ar que, sen­do invisível, se acreditava ser a respiração do espírito que concebeu a ideia da criação antes que fosse manifestada. A morada do céu era a sede de Zeus, rei dos deuses, de onde ele formulou suas leis e elaborou o seu plano para a evolução do homem.

Assim, o elemento ar simboliza o domínio da mente, as faculdades da conceituação e o pensamento abstraio que devem preceder qualquer ato de criação e que proporciona estrutura e significado à vida. A espada com seus dois gumes cortantes é uma imagem adequada para o poder ambiva­lente da mente, que pode penetrar a situação mais obscura e mais incompreensível com sua agudeza e, ao mesmo tempo, cortar com sua lâmina inflexível.

As 14 cartas do naipe de Espadas descrevem o desenvolvimento dessa faculdade racional em sua forma obscura e clara por meio de conflitos, disputas e separações que os pensamentos e as palavras podem provocar; pela clareza e pela compreensão que a mente pode oferecer, e pelos tipos característicos que integram o domínio da mente em sua forma mais pura.

O naipe de Ouros (Pentáculos) corresponde ao antigo elemento terra, a argila essencial da qual fomos formados e para a qual deve­mos voltar derradeiramente. A terra é tanto o nosso início quanto o nosso fim, e a experiência do corpo é a realidade original antes que qualquer sentimento, imagem ou espírito possa habitá-la. A terra pode ser trabalhada e formada para construir casas e outras criações, e a própria vida exige ajustes para as necessidades de nossos corpos por meio do alimento, do abrigo, da vestimenta e do dinheiro que simbo­liza o merecimento, o valor e a recompensa pela energia empregada. O símbolo do pentáculo - a moeda de ouro cunhada com a estrela de cinco pontas de Hermes, o deus da magia, dos mercadores e das transações - significa dinheiro. Mas o dinheiro em si é um dos sím­bolos mais profundos e intimamente ligados ao nosso sentido de valor e de merecimento em tudo o que realizamos na vida. O pentáculo também é um prato no qual o alimento pode ser servido, um recipien­te que guarda tudo o que criamos. As 14 cartas do naipe de Ouros descrevem o desenvolvimento da "realidade da função" e o ajuste gradativo, durante a vida, de necessidades, desafios, decepções e recompensas do mundo material, assim como os personagens típicos que incorporam o mundo da terra em sua forma mais pura.

Os antigos filósofos declaravam que esses quatro elementos estão em nós e, em um sentido interior, todos nós possuímos essas quatro diferentes dimensões da vida e quatro diferentes modos de nos adaptarmos a ela. Todos devemos passar por experiências ar­quetípicas nos quatro reinos, ou seja, elas tendem a seguir certos padrões humanos básicos. O curso dos relacionamentos humanos. por exemplo, é um caminho que, apesar de bem conhecido, todas as vezes que o trilhamos é como se fosse pela primeira vez. A nossa herança de Mitologia, folclore e contos de fadas, sem mencionar a grande literatura e arte do mundo, revela todas as típicas situações humanas do amor - separação, idealismo, decepção, rejeição, con­quista, realização, união e perda.

Em razão de nossas experiências serem típicas de cada um dos quatro reinos, exploraremos cada uma das cartas numeradas dos quatro naipes por meio de um mito particular que abrange as dez cartas e que incorpora essas experiências características. Explora­remos as quatro cartas da corte de cada naipe por intermédio de figu­ras humanas da Mitologia que personificam os tipos característicos daquele naipe. Dessa forma, poderemos examinar detalhadamente os essenciais padrões humanos do desenvolvimento que ocorre emocio­nal, criativa, intelectual e fisicamente.

Para as cartas numeradas do naipe de Copas, consideraremos o mito de Eros e Psique, pois essa é uma história arquetípica de amor cujo desenrolar se relaciona com as principais experiências nos rela­cionamentos com as outras pessoas.

Para as cartas numeradas do naipe de Paus, analisaremos o mito de Jasão e o Velocino de Ouro, pois essa é uma história de aventura e de conquista da imaginação criativa sobre as limitações da maté­ria. O desenrolar dessa história relaciona-se com as principais expe­riências no esforço para expandir as nossas vidas criativamente.
Para as cartas numeradas do naipe de Espadas, acompanhare­mos o mito de Orestes e a Maldição da Casa de Atreu, pois essa é uma história arquetípica dos usos e dos abusos da mente, e dos con­flitos, disputas e reconciliações que encontramos por meio de nossa ética e de nossos princípios.

E para as cartas numeradas do naipe de Ouros, investigaremos o mito de Dédalo, pois essa é uma história arquetípica do destino do espírito encarnado em matéria imperfeita e o desenvolvimento das destrezas e habilidades no mundo da forma.


O NAIPE DE COPAS

As Cartas Numeradas

Na realidade, a lenda de Eros e Psique é o desenvolvimento e o amadurecimento dos sentimentos, e a capacidade do relacionamento com outra pessoa.

De certa forma é uma jornada, uma viagem, mas diferente da grande jornada do Louco pelos Arcanos Maiores, pois se trata de uma aventura específica que diz respeito ao tema central do coração humano.

Psique (em grego, a palavra significa "alma") era uma princesa de grande beleza e de quem a própria deusa Afrodite tinha ciúmes. Ela ordenou ao seu filho Eros, o deus do amor, que castigasse a audaciosa mortal. Logo depois, um oráculo mandou que o pai de Psique, ameaçado de terrível calamidade, levasse a filha a um ro­chedo solitário na qual ela se tornaria vítima de um monstro. Mas, quando Eros viu a jovem que deveria ser sacrificada, ficou tão sur­preso com a sua beleza que levou um tombo e acabou picando-se com uma de suas flechas - aquelas que usava com tanta eficiência para incutir amor tanto em mortais quanto em deuses. E, assim, Eros apaixonou-se por quem sua mãe lhe ordenara destruir.

Tremendo, mas resignada, Psique aguardava em seu rochedo so­litário a realização do oráculo quando, de repente, ela percebeu que estava sendo levada gentilmente pelos ventos a um magnífico palá­cio. Ao cair da noite, quando Psique quase dormia, um ser misterioso apareceu na escuridão dizendo-lhe ser o marido ao qual era destina­da. Ela não podia lhe ver as feições, mas a sua voz era gentil e suas palavras eram cheias de ternura. O casamento foi devidamente rea­lizado, mas ao alvorecer, antes de retirar-se, o estranho fez com que Psique prometesse nunca tentar ver o seu rosto.

Psique não era infeliz com a sua nova vida e nada lhe faltava, com exceção da deliciosa presença do marido que somente a visita­va durante a noite. A sua felicidade teria continuado dessa maneira não fosse por suas duas invejosas irmãs, que plantaram a semente da suspeita em seu coração, dizendo que o marido devia ser um monstro horrível já que lhe escondia o rosto. Tanto insistiram que uma noite, apesar de sua promessa, Psique Ievantou-se da cama que compartilhava com seu marido e acendeu uma lanterna iluminando o rosto misterioso. Em vez de um monstro terrível, ela contemplou o mais lindo jovem do mundo - o próprio Eros. Ao pé da cama, esta­vam a sua aljava e as suas flechas. Chocada, Psique virou-se em direção à cama, mas caiu e feriu-se com uma das flechas, apaixonando-se profundamente pelo jovem deus que ela, anteriormente, havia aceitado porque ele a amava. Ao cair, ela despertou Eros, que a repreendeu por sua falta de fé e imediatamente desapareceu.
O palácio também desaparecera e a pobre Psique encontrou-se novamente no rochedo solitário no seio de um apavorante isolamento.

No início, ela considerou suicidar-se e se jogou em um rio que estava próximo, mas as águas levaram-na delicadamente para a margem oposta. Dali em diante, ela passou a vaguear pelo mundo à procura do amor perdido, perseguida pela ira de Afrodite e forçada pela deusa a submeter-se a uma série de terríveis provações.

Entretanto, ela conseguiu superar todas as provas, assistida pelas criaturas da Natureza - as formigas, os pássaros, os caniços. Ela teve de descer ao Submundo, cujo acesso era proibido a qualquer ser huma­no. Finalmente, sensibilizado com o arrependimento de sua esposa, que nunca deixara de amar e de proteger, Eros implorou a permissão de Zeus para que Psique se reunisse a ele. Afrodite esqueceu o seu rancor e as segundas núpcias dos dois amantes foram celebradas com grande alegria.

O Ás de Copas

A carta Ás de Copas retrata uma linda mulher de cabelos pretos que emerge de um mar espumante. Ela segura uma única e grande taça dourada.Nesta carta, encontramos a deusa iniciadora que é a força ativa responsável pela lenda romântica de Eros e Psique: trata-se de Afro­dite, que nasceu das águas espumantes, a deusa do amor em seus mais nobres e também mais degradantes aspectos.

Na Mitologia, o nascimento de Afrodite foi muito estranho. Quando, pela insistência de sua mãe Gaia, o astuto Cronos castrara o seu divino pai Urano, ele jogou os seus genitais ao mar. Eles flutuaram na superfície das águas produzindo uma espuma branca da qual surgiu Afrodite. Trans­portada pela respiração de Zéfiro, o Vento do Oeste, a deusa foi levada para as margens de Citera (Grécia) e finalmente parou nas praias de Chipre. Ela foi recebida pelas Horas, as deusas das esta­ções, que a vestiram ricamente, enfeitaram-na com jóias e a condu­ziram para a assembleia dos imortais.

Afrodite era uma deusa complexa. Essência da beleza feminina, tudo nela era puro charme e harmonia. Mas também podia ser ciu­menta, maliciosa, vaidosa, enganadora, traiçoeira, preguiçosa e vin­gadora. Ela espalhou por toda a natureza a alegria de viver, embora também fosse a divindade temerosa que enchia os corações huma­nos com o frenesi da paixão. As vítimas escolhidas por Afrodite so­friam, pois chegavam a trair os seus próprios pais, a abandonar os seus lares ou eram acometidas por paixões animalescas ou incestuo­sas. Ao mesmo tempo, Afrodite protegia as uniões legítimas e presi­dia a santidade do casamento.

Em suma, Afrodite é a imagem da força da Natureza. O signifi­cado dos Ases nos quatro naipes dos Arcanos Menores é a erupção inicial da energia vital, e a deusa de cabelos pretos que emerge do mar segurando a taça dourada representa o surgimento do sentimen­to primordial. Esse é o impulso para o relacionamento e, se não esti­vermos prontos, então a outra pessoa não aparecerá. Na lenda, Eros
e Psique nunca teriam se encontrado se não fosse por Afrodite, pois foi o seu capricho que promoveu a ação da história. Portanto, o As de Copas implica o início da grande jornada pelo domínio do coração, no qual a abundância de sentimentos irrompe e impulsiona o indiví­duo ao relacionamento.

No sentido divinatório, o Ás de Copas anuncia uma disseminação de sentimento que, apesar de não ter sido evidenciado, surge como primitivo, vital e, muitas vezes, avassalador. No início de um relacio­namento, o potencial está implícito, embora nem sempre seja mani­festado. E o indivíduo está pronto para embarcar na jornada do amor.

O Dois de Copas

A carta Dois de Copas retrata o encontro inicial entre Eros e Psique. Ela está vestida de branco para proclamar a sua virgindade e está amarrada em um rochedo cercado de água por ordem de Afrodite. Aos seus pés há uma taça dourada. Seu olhar é distante e ela aguarda a sua morte certa pelo monstro que habita a profundeza do mar. Atrás dela, Eros paira no céu, tremulando com seus cabelos louros e suas asas douradas. Em sua mão direita, ele segura uma taça dourada. Em sua mão esquerda, a flecha com a qual, acidentalmente, ele se feriu e, inadvertidamente, apaixonando-se pela mulher que fora ordenado a matar.

O Dois nos quatro naipes dos Arcanos Menores representa a polarização da energia vital inicial dos Ases. Aqui, no Dois de Copas, essa polarização implica a atração entre o masculino e o feminino. O sentimento primordial que irrompeu no Ás agora encontrou um obje-to, assim como Eros encontra a mulher com quem pode se unir. Na antiga fábula de Platão a respeito das origens da humanidade, a alma humana, antigamente, era uma esfera perfeita e continha tanto o masculino quanto o feminino.

Mas essa alma andrógina dividiu-se e, assim, a raça humana, constituída de homens e mulheres, é cegamente levada a buscar a sua metade perdida. Para a mentalidade grega, a atração erótica representava alguma coisa sensual e espiritual, pois, além de proporcionar prazer físico, também era a procura da alma por seu complemento.
Quando um novo potencial começa a surgir do inconsciente na vida do indivíduo, ele inicia por projetar-se sobre alguém ou sobre alguma coisa no mundo exterior. Dessa forma, quando o potencial para a realização indicado no Ás de Copas começa a movimentar-se na pessoa, a primeira indicação desse movimento é a atração pela outra. Nessa outra pessoa, podemos vislumbrar o que nós mesmos estamos nos tornando. Em Psique, que é mortal, o deus Eros perce­be a oportunidade de humanizar-se, pois ele é o espírito desencarna­do do amor que ainda não encarnou em um relacionamento humano. No deus Eros, Psique pressente o potencial da imortalidade que pode elevar o seu amor humano para um nível mais alto e mais espiritual, mas não nesse momento. O Dois de Copas nos apresenta os prota­gonistas da lenda, e o poder primordial de Afrodite se transforma no poder de atração.

No sentido divinatório, o Dois de Copas prevê o início de um relacionamento. Ele também sugere uma reconciliação que, em um relacionamento já existente, passou por dificuldades ou pela separa­ção. Pode até indicar o encontro ou os acordos entre parceiros de negócios, pois aqui também o elemento de relacionamento é evocado.

O Três de Copas

A carta Três de Copas retrata o casamento de Eros e Psique. Em pé, no rochedo cercado de água, Psique está com seu vestido de noiva e seus cabelos enfeitados de flores; ela segura um buque de lírios brancos. Atrás dela, está o noivo que ela ainda não pode ver -Eros, o radiante deus do amor, com seu arco e aljava com flechas douradas. Três ondinas ou ninfas dançam em um círculo ao seu redor, cada qual emergindo da água e segurando uma taça doura­da em comemoração do casamento.
Os Três de todos os naipes dos Arcanos Menores representam o estágio de uma conclusão inicial. Uma nova dimensão de vida está por começar, enquanto a primeira parte da jornada foi completada.

Portanto, o Três de Copas é uma carta de comemoração, represen­tando uma experiência de realização emocional e a conclusão da atração inicial. O casal uniu-se e há um sentimento de alegria e de promessas. Mas a história de Eros e Psique conta algo muito impor­tante sobre esse estágio inicial de realização e de conclusão. Psique ainda não viu o seu noivo nem, no mito, questiona a falta de um encontro real. Inicialmente ela se contenta em viver com Eros em uma espécie de estado onírico no qual ele volta para ela na escuridão da noite. Portanto, junto com a alegria e a comemoração desse casa­mento, paira uma certa ingenuidade. Esse é o estado imediatamente reconhecível de "estar apaixonado", no qual estamos fascinados pela nossa imagem refletida na outra pessoa, mas também é aquele esta­do em que o verdadeiro parceiro ainda não é visível aos nossos olhos. O encontro inicial é uma experiência alegre, uma comemoração do amor e da vida, um excitante início. Grande parte da literatura e do drama do mundo retrata a felicidade desse mesmo estado.

Mas a mensagem é: aproveite-o enquanto puder. Há muito mais à frente, alegrias e tristezas, antes que a jornada pelo naipe de Copas se com­plete e que o amor de Eros e Psique surja com todo o seu potencial humano e divino. O Três de Copas é uma iniciação à vida, cheio de promessas. A virgem casa-se e deixa para trás a sua virgindade e a sua inocência. Essa é a carta da transição anunciando outros desen­volvimentos futuros. A jornada ainda não terminou e há muito traba­lho à frente.

No sentido divinatório, o Três de Copas sugere a comemoração de um casamento, o início de um caso de amor, o nascimento de uma criança ou alguma outra situação de realização emocional e de pro­messas. Mas cada uma dessas situações também é um início, uma iniciação para níveis mais profundos de experiências do coração e o prenúncio de explorações futuras.

O Quatro de Copas

A carta Quatro de Copas retrata Psique, a recente noiva, sentada no magnífico palácio do deus Eros. Através de colunas brancas, vislumbra-se o mar. Aos dois lados de Psique, estão suas invejosas irmãs, uma vestindo preto e a outra, vermelho, ambas sussurrando que o seu noivo seria um terrível monstro; do contrário, por que haveria de ocultar-se nas sombras, visitando-a somente à noite? Psique assume um olhar descontente. À sua frente, quatro taças douradas.

Os Quatro de todos os naipes dos Arcanos Menores são aqueles do descontentamento divino. Apesar de tudo parecer alegre e compensador, ainda existem dúvida e suspeita. O Quatro de Copas retrata esse descontentamento em nível de sentimento. Psique vive na opulência e é visitada à noite pelo marido amante e carinhoso, mas mesmo assim não está satisfeita. Suas invejosas e ciumentas irmãs, de certa forma, são os impulsos interiores da própria alma, pois, apesar de negativos e de provocar-lhe dúvidas, sondam um pro­blema real: a cegueira e a ignorância de Psique quanto a quem e o que é o seu verdadeiro consorte.

Assim, a realização inicial do Três provou ser uma decepção, pois há uma crescente percepção de que alguma coisa está errada, algo que não está sendo considerado. Todos temos essas horríveis irmãs dentro de nós, uma espécie de lado sombra de nossa personalidade que mais parece desejar-nos o mal e, no entanto, somente quer o nosso bem, porque ele nos obriga a analisar mais profundamente e a exigir mais honestidade em nosso tratamento emocional com as pes­soas. Caso Psique tivesse permanecido em seu estado cego e satis­feito de ignorância, ela nunca teria crescido e todo o potencial de seu relacionamento com Eros e o seu próprio "eu" nunca seria alcança­do. Portanto, o Quatro de Copas, a carta dos sentimentos desconten­tes e da insatisfação emocional, por nenhuma razão aparente, é tanto negativo quanto positivo. Ele retrata todas as nossas vãs suspeitas e dúvidas a respeito das outras pessoas; e isso resulta na semente de todas as traições. Entretanto, ele ainda retrata uma misteriosa força inteligente funcionando no indivíduo que, de alguma forma, sabe que ainda há um longo caminho pela frente.

No sentido divinatório, o Quatro de Copas prevê um período de insatisfação, de tédio e de depressão em um relacionamento. Há um sentimento de ter sido abandonado ou trapaceado, apesar de que os trapaceiros somos nós mesmos, graças às nossas expectativas irreais. Essa insatisfação pode levar a um demorado e tácito ressentimento ou pode levar a uma análise mais profunda dos relacionamentos, um ca­minho mais árduo porque as suposições e fantasias anteriores serão então desafiadas.

O Cinco de Copas

A carta Cinco de Copas retrata as consequências da traição de Psique. Suas irmãs despertaram os seus medos a tal ponto que ela acabou quebrando a promessa feita a Eros ao acender uma lanterna para ver o seu rosto enquanto dormia. Aqui podemos ver Psique desesperada diante da cama nupcial vazia. A mão esquerda segura a lanterna, enquanto a direita está levantada em súplica para Eros, que pode ser vislumbrado desaparecendo atrás das colunas de mármore do esplêndido palácio. A frente, quatro taças derrubadas com seu conteúdo espalhado no chão; uma única taça permanece em pé e intacta.

O Cinco de Copas representa aquele período de prova em um relacionamento quando nos arrependemos de certas ações do pas­sado. Essa carta coloca o difícil problema da traição que, como parte do naipe de Copas, é apresentada como uma experiência necessária e potencialmente criativa. Apesar de penosa, a traição quebra o cego encanto mágico de "estar apaixonado" e totalmente envolvido com a outra pessoa, pois trair, às vezes, pode significar ser autêntico.

A traição de Psique não foi um ato impensado ou causado por ambi­ção; ele surge de sua necessidade de conhecer o parceiro, e o deus, de certa forma, está errado em negar-lhe esse conhecimento. Por­tanto, essa é uma ação honesta que provoca o conflito inevitável que,no entanto, é necessário, porque qualquer outra ação constituiria uma autotraição.

Trair a exigência ou a expectativa da outra pessoa é um aspecto difícil, mas frequente, de um relacionamento mais íntimo. O amante, marido ou esposa que diz: "Não procure me conhecer realmente, mas permaneça apaixonado pela imagem que eu lhe apresento", pro­vocará a traição e o traidor, tal como Psique, muitas vezes sofre as consequências. Porém, a presença de uma taça intacta na figura afirma que nem tudo está perdido; alguma coisa ainda resiste que permite trabalhar na reestruturação.

Agora Psique sabe quem é o seu marido, além de saber que o ama, e não a uma simples imaginação. Sem esse ritual de passagem ela ficaria presa à ansiedade e ao ressentimento do Quatro de Co­pas. Nesse momento, ela sofre com o amargo arrependimento, mas ainda resta algo com o que trabalhar.

No sentido divinatório, o Cinco de Copas implica o arrependimen­to de ações passadas. Algo saiu errado, uma traição ocorreu, e há tristeza e remorso. A separação pode ocorrer no relacionamento, mas essa carta não a prevê como definitiva. Resta ainda alguma coisa a ser trabalhada e o indivíduo deve enfrentar o desafio e com-prometer-se com o futuro.

O Seis de Copas

A carta Seis de Copas retrata Psique sentada sobre um rochedo e, atrás dela, um mar calmo. Em sua mão esquerda, ela segura e contempla o conteúdo de uma taça dourada. Em sua mão direita, os restos de seu buque de noiva de lírios brancos. Ao seu redor, outras cinco taças douradas.

O Seis de Copas é uma carta nostálgica. Aqui podemos ver Psique abandonada; o seu misterioso marido se foi e o magnífico palácio desapareceu; tudo o que ela tem são boas memórias. Entretanto, apesar da catástrofe, Psique parece estar tranquila, pois o Seis de Copas não é uma carta negativa. Com o ocorrido, Psique conseguiu
algo muito precioso. Ela realmente viu Eros e agora sabe que o ama pelo que ele é, e não pelo conforto e pelo prazer que ele lhe propor­cionava. Portanto, apesar da perda, ela descobriu algo a seu próprio respeito e é essa verdade que promove a harmonia que podemos ver nessa carta.

A calma e a serenidade que muitas vezes ocorrem depois de uma crise em nossas vidas são relacionadas a esse estágio da história. Aqui, os sonhos e as expectativas irreais do passado, por meio de provas e decepções, de certa forma se cristalizam em algo sólido e real. Psique assumiu o desafio de recuperar o seu amor perdido após o arrependimento e o remorso do Cinco de Copas e, portanto, está em paz consigo mesma. O seu amor tornou-se realidade e agora ela tem alguma coisa com que trabalhar. Nesses momentos, a nostalgia do passado sempre volta para nos assombrar, mas existe uma faísca de verdade nele e não se trata apenas de uma fantasia sentimental sem fundamento. Após a auto-recriminação do Cinco, o Seis de Co­pas representa uma retomada positiva na jornada de Psique para o seu objetivo.

No sentido divinatório, o Seis de Copas anuncia um período de serenidade que resulta das experiências dos sonhos do passado. Al­gumas vezes, um antigo amor volta do passado ou o sonho de um desejo antigo parece ser realizável em um futuro próximo. A ceguei­ra própria do estado de "estar apaixonado" solidificou-se e, apesar de o passado parecer maravilhoso, mas irrevogavelmente perdido, uma parte de sua promessa surge no presente, temperada e reforça­da. Essa carta implica a nostalgia a respeito do passado, mas com uma diferença: o passado pode levar ao futuro e o sonho passa a ser possível, e até próximo de realização.

O Sete de Copas

A carta Sete de Copas retrata a deusa Afrodite instruindo Psique a respeito das tarefas que ela deverá cumprir para poder ficar com Eros novamente. Psique está ajoelhada diante da deusa, reconhecendo a soberania divina em todos os assuntos relativos ao amor. Surgindo da água, Afrodite aponta para as sete taças douradas que flutuam nas nuvens diante dela.

O Sete de Copas representa a dádiva - e o problema - de ser confrontado com muitas possibilidades nos assuntos do coração. Essa é a carta dos "castelos no ar". A intuição percebe todos os tipos de potenciais futuros, mas essas visões de possibilidades devem tornar-se reais e concretas por meio de um grande e árduo trabalho. Psique ergueu-se de seu estado nostálgico retratado pelo Seis de Copas, com um sério compromisso para com o seu amor e, humildemente, ela pede a ajuda de Afrodite, apesar de saber muito bem que a capri­chosa deusa foi quem iniciou todas as mudanças catastróficas da sorte.
Como resposta, Afrodite garante a futura reunião com Eros e é dessa forma que são invocadas as alegres fantasias da solução do relacionamento. Agora, tudo é possível para Psique. Mas Afrodite exige um preço: trabalho árduo e demorado, esforços cansativos, cui­dado e previsão, que podem provocar humilhação e sofrimento. Mas Psique não pode ter Eros de volta sem executar esses trabalhos.

O surgimento de alegres fantasias a respeito de um futuro mara­vilhoso no qual tudo é possível no amor é o natural desabrochar do comprometimento interior já estabelecido no Seis de Copas. Quando conseguimos uma profunda realização dos nossos sentimentos ver­dadeiros ou conseguimos uma ligação com uma importante parte de nós mesmos, tal como Psique conseguiu com o seu amor por Eros, o futuro descortina-se para uma rósea visão. "Agora eu sei como tudo isso aconteceu", afirmamos com confiança, porque agora sabemos que as possibilidades são infinitas.

Mas tempo, escolhas certas e trabalho árduo são necessários para que essas possibilidades se trans­formem em realidade concreta. O relacionamento profundo e ho­nesto que Psique agora almeja promete um futuro feliz. Mas, antes,ela deve aceitar as limitações da realidade: o fato de seu marido ser imaturo demais para aceitar essa honestidade e que ela própria deve aprender a ser paciente, ter fé e perseverança, antes de poder tê-lo de volta.

No sentido divinatório, o Sete de Copas prevê uma situação emo­cional na qual muitos potenciais são evidentes, mas o indivíduo é confrontado pelo desafio de escolher e agir em termos realistas para que esses potenciais se manifestem.

O Oito de Copas

A carta Oito de Copas retrata Psique executando a última tarefa de Afrodite: a viagem ao Submundo para resgatar um pote de creme de beleza de Perséfone. Psique apresenta-se de mãos vazias ao descer os degraus que levam à escuridão do Submundo; seu rosto está triste, mas resignado, pois sabe que provavelmente não sobreviverá à viagem. Atrás dela, abandona­das, oito taças douradas cuidadosamente arrumadas.
O Oito de Copas é a fase mais difícil da jornada de Psique para o seu objctivo de recuperar o relacionamento com Eros: a desistência voluntária da esperança no futuro.

Nenhum mortal vivo pode descer ao reino de Hades e, no que diz respeito a Psique, essa última tarefa que Afrodite lhe impôs deve significar a sua morte. No entanto, ela obedece à deusa por ser leal ao seu compromisso com o amor. Des­sa maneira, trata-se da desistência da esperança. Todas as tarefas tão meticulosamente executadas sugerem, pelas oito taças cuidado­samente arrumadas, que de nada serviram. Ela enxerga a situação como realmente é - que Afrodite jamais cederá - e, desesperada, ela desiste e abandona todas as suas esperanças passadas.

Esse estágio do relacionamento é um dos mais penosos, porque significa que nada mais pode ser feito. Esforços maiores de nada servirão; devemos desistir e começar tudo de novo. Muitas pessoas, quando são confrontadas com o dilema refletido pelo Oito de Copas, recusam-se a aceitar o impasse e continuam a suplicar, ameaçar, coagir e a chantagear o parceiro, na esperança de uma resposta que não é mais possível nas atuais circunstâncias. O Submundo, como vimos na carta da Morte dos Arcanos Maiores, é o símbolo de luto e o abandono do controle; é o lugar da morte e da transformação de nossas velhas atitudes. Portanto, quando não há mais o que fazer, devemos desistir voluntariamente, não a título de "negociação" para garantir uma futura reconciliação - pois esse não é um autêntico abandono -, mas porque é a única coisa a ser feita. Essa é a aceita­ção do que parece ser o destino, a aceitação do fim. Não importa o que aconteça depois, a desistência nos transformará porque é a su­jeição ao que é maior e não à boa vontade do parceiro, mas à vonta­de do divino, aqui representada pela grande deusa do amor.

No sentido divinatório, o Oito de Copas implica a necessidade de desistir de alguma coisa. A verdade da situação deve ser enfrentada; não há o que fazer e não existe outra forma senão desistir. Muitas vezes, a situação leva à depressão, pois o Submundo é um lugar de luto. O futuro não pode ser manipulado e para o desconhecido nos dirigimos de mãos vazias.

O Nove de Copas

A carta Nove de Copas retrata o momento de felicidade quando Psique é resgatada do Submundo e reunida a Eros. Em um roche­do cercado pelo mar, Psique e Eros portam guirlandas de flores e se confrontam de braços dados. Ao lado, Afrodite olha bondosa­mente para os dois, levantando uma taça e abençoando essa união. Abaixo deles, seis taças douradas estão cuidadosamente arrumadas em comemoração à reunião dos amantes.

O Nove de Copas é a carta do desejo que representa a satisfação e a realização de um sonho emocional. Psique e Eros estão final­mente reunidos no mútuo amor honesto. Cada um, à sua maneira, traiu o outro e sabe em nível profundo quem é o parceiro; e compre­enderam e perdoaram-se mutuamente. É por isso que Afrodite aben­çoa a união, pois o poder do amor incondicional humano pode afetar até os deuses. Esse momento extático de realização, diferentemente da comemoração inicial do Três de Copas, foi realmente merecido,não pela força, pela vontade ou pela manipulação emocional, ou ain­da pela proclamação exagerada do auto-sacrifício, mas pelo seguro comprometimento interior assumido pelo único ser humano da histó­ria. Tudo o que Psique fez e realizou foi em fidelidade ao seu próprio sentimento. E, dessa forma, ela adquiriu o direito de reivindicar o seu marido divino, fazendo com que até os deuses se envergonhassem.

Esse segundo encontro é o autêntico casamento de Eros e Psique, sugerindo o que essa união pode vir a ser, pois ela não surge do simples estado de "estar apaixonado", mas do comprometimento tanto ao amor quanto ao ressentimento, à traição, à separação, ao deses­pero e à possibilidade da desistência, se for necessária. Isso é raro, pois a jornada de Copas não diz respeito a "estar apaixonado e viver feliz para sempre", para logo se separar quando o amado decepcio­na. Na realidade, trata-se de uma jornada interior ao encontro de um compromisso com os nossos próprios valores de sentimento e, por­tanto, é uma união tanto interior quanto exterior.

No sentido divinatório, o Nove de Copas anuncia um período de prazer e de satisfação, e a realização de um desejo almejado. Ele representa a recompensa pelos esforços empregados e a validação do nosso comprometimento.

O Dez de Copas

A carta Dez de Copas retrata a elevação de Psique ao nível divino para que ela possa entrar no mundo dos deuses com o seu marido. O casal, de mãos dadas, encontra-se-novamente no esplêndido palácio de Eros. Psique não porta mais o seu traje virginal; a sua veste agora é de ouro cintilante e, sobre seus ombros, como o seu marido, um par de asas douradas. A frente deles, dez taças douradas.

O Dez de Copas representa um estado de permanência e de con­tentamento constante. O êxtase da reunião dos amantes na carta Nove de Copas não foi dissipado como na comemoração da carta Três de Copas e o descontentamento no Quatro de Copas, pois esse casamento se baseia na união consciente de dois amantes, mas par­ceiros diferentes. Por conseguinte, eles poderão usufruir um futuro que suportará qualquer desafio da vida ou dos deuses.

O fato de Psique ter sido elevada ao status imortal implica que, agora, o seu amor por Eros engloba não somente uma dimensão pessoal e sensual, mas também uma dimensão espiritual. Eros foi humanizado pelo seu amor por Psique; ele não precisa mais escon­der dela o seu rosto. Por outro lado, Psique experimenta um sentido de ligação com o divino que somente o amor profundo pode promo­ver. Dizem que, às vezes, o amor por uma pessoa abre o coração para o amor à própria vida; a vida tem significado e propósito, e um mundo mais amplo e mais brilhante descortina-se ao nosso olhar. Certa vez, Platão escreveu: "Quando olhamos para o rosto do ser amado, podemos ver o reflexo do deus que chegamos a venerar". É como se o amor, ao passar por muitas provas e fundamentado na honestidade e na humildade, nos ligasse às nossas próprias almas e com um sentido de permanência, significado e retidão na vida. Essa é a promessa inerente ao Ás de Copas que se realiza no Dez de Copas. Nem todo relacionamento consegue esse feito, assim como não o consegue sempre. Entretanto, nós humanos sempre tentamos.

No sentido divinatório, o Dez de Copas prevê contentamento e permanência duradouros no domínio do coração.

As Cartas da Corte

O Pajem de Copas

A carta do Pajem de Copas retrata um garoto de aproximadamen­te 12 anos, de cabelos pretos e trajando uma túnica lilás; ele está ajoelhado à beira de um lindo lago azul. No chão, uma taça dourada cujo conteúdo o garoto olha atentamente, pois está estudando o reflexo de seu próprio rosto e está maravilhado com sua beleza. Ao seu redor, tufos de botões de íris e narcisos ainda não desabrochados. No cenário, uma vegetação que esconde um céu azul.

As cartas da corte do naipe de Copas são representadas por figu­ras mitológicas que incorporam as características típicas do naipe. Na carta do Pajem de Copas, deparamo-nos com o mutável, vulnerável e sutil início do elemento ar: a emergência nascente da capacidade do sentir. Isso é encenado pela figura mitológica do lindo jovem Narciso. Ele era um tespiano, filho do deus-rio Cefiso e de uma ninfa. Qualquer um poderia se apaixonar por Narciso, mesmo como criança, e seu caminho estava repleto de pretendentes de ambos os sexos que se apaixonavam pela beleza do garoto. Mas sua mãe, advertida pelo adi­vinho Tirésias, nunca permitira que o garoto visse o seu próprio refle­xo. Portanto, ele não tinha noção de sua própria identidade.

Um dia, passeando pela campina tespiana, Narciso chegou a um lago. Esse lago era alimentado por uma fonte de água cristalina e nunca fora perturbado por gado, pássaros, animais selvagens, ho­mens e nem mesmo pelos galhos das árvores que o sombreavam. Procurando saciar a sua sede, ele se ajoelhou e viu o seu reflexo na água, pelo qual se apaixonou imediata e perdidamente. Primeiro ele procurou abraçar e beijar o lindo rapaz que o confrontava, mas logo ele se reconheceu e ficou se admirando naquele lago, hora após hora.

Finalmente, Narciso não conseguia mais suportar a agonia desse inatingível amor. Ele sacou a sua adaga e feriu o seu peito, excla­mando: "Oh, jovem, amado em vão, adeus!", e expirou. O seu san­gue ensopou a terra e dela brotou a flor branca que foi chamada narciso.

Narciso, o Pajem de Copas, inicialmente parece ser simplesmen­te a imagem de um fútil auto-amor. Mas também pode ser visto como uma imagem de autodescoberta, pois para amar outra pessoa é preciso antes o reconhecimento e o amor de si mesmo; do contrário, é um exercício triste e muitas vezes infrutífero procurar na outra pessoa o que o indivíduo ainda não encontrou em si. Esses relacionamentos são destinados ao fracasso, e o egoísmo aparente de Narciso, na realida­de, é o início da descoberta do nosso próprio merecimento de sermos amados.
Frequentemente, esse é o início da genuína capacidade de amar outra pessoa individualmente, em vez de um potencial fornece­dor de qualidades que precisamos para nos sentir completos.
Assim Narciso, o Pajem de Copas, é uma figura ambígua. De um lado, como imagem de um sutil início nascente do sentimento da vida, ele sugere o nascimento de algo novo - a capacidade de amar ou a renovação da fé no amor que anteriormente poderia ter sido prejudi­cada ou traumatizada por um relacionamento infeliz. De outro lado, o sentido do auto-amor que Narciso incorpora é o início da cura, por mais fútil e infantil que ele pareça. Depois de uma penosa separação ou da perda de um ser amado, muitas pessoas passam um longo tempo em uma espécie de crepúsculo emocional, durante o qual elas têm o sentimento de não ter mais nada para dar aos outros. Nesse período, o indivíduo tampouco cuida de si mesmo. Mas os gentis e delicados movimentos dessa renovação da capacidade de amar muitas vezes assume a forma de um interesse lento e gradativo por si -no próprio corpo, no ambiente que o cerca, tentando agradar e ali­mentar a si mesmo com coisas que proporcionem prazer em vez de dor ou de lembranças da dor. Esse é um processo que deve ocorrer antes de o indivíduo estar pronto para arriscar outro encontro emocional.

O Pajem de Copas, tal como os outros pajens dos Arcanos Meno­res, sugere alguma coisa frágil e delicada, facilmente mal-interpretada e prejudicada. Assim também é o nosso sentido nascente do auto-amor, que pode levar a uma relação mais gratificante com a vida. Podemos facilmente chamar Narciso de fútil e egoísta por ele se preocupar unicamente consigo mesmo.

Mas ele precisa começar dessa maneira antes de poder enxergar qualquer outra pessoa e é interessante observar que, na Mitologia, é a sua mãe que tenta man-tê-lo afastado do autoconhecimento e do auto-reconhecimento.

O triste final da história de Narciso também pode ser interpretado em vários níveis. De alguma forma, o Pajem de Copas e tudo o que representa deve ser transformado ou "morrer" - antes que o amor por outra pessoa possa desenvolver-se totalmente. Mas é necessá­rio que esse seja um auto-sacrifício, um movimento genuíno da autopreocupação para a percepção das outras pessoas. Portanto, é próprio e correto que Narciso ponha um fim à sua própria existência, transformando-se no Cavaleiro de Copas, que permitirá ao senti­mento da vida mover-se livremente para o exterior e para as outras pessoas.

Quando o Pajem de Copas aparece em uma abertura de cartas, ele sugere algo novo em nível de sentimento. Isso pode representar um novo relacionamento, uma nova qualidade de sentimento em um relacionamento e até o nascimento de uma criança. Muitas vezes, o Pajem de Copas prevê uma renovação da capacidade de amar, co­meçando pelo amor por si mesmo, após um período de dor e de isolamento. Essa qualidade delicada deve ser logo alimentada, do contrário pode desaparecer rapidamente.

O Cavaleiro de Copas

A carta do Cavaleiro de Copas retrata um lindo jovem de pele clara, cabelos pretos e olhos profundos, montado em um elegante cavalo branco. Ele traja uma túnica roxa e uma armadura prateada toda escamada, e sobre a cabeça porta um elmo com um enfeite em formato de cauda de peixe. Ele conduz o seu cavalo elegantemente ao longo de um riacho borbulhante no qual os peixes saltam da água. Ao seu redor, um cenário romântico de bosques e colinas verdes e, ao longe, o. mar pode ser visto sob um céu azul-claro. Com a sua mão esquerda, ele segura uma taça dourada.

Na carta do Cavaleiro de Copas, deparamo-nos com a dimensão volátil, sensível e mutável do elemento água que, como o riacho, está cheio de vida e em movimento constante. Essa é a representação do herói mitológico Perseu, motivado em todas as suas aventuras pelo amor às mulheres e que, em suas jornadas, deve enfrentar as várias facetas do feminino, tanto obscuras quanto claras, antes de poder reunir-se com o seu amor. Perseu era filho de Zeus e de uma mulher mortal chamada Danae, para quem o deus apareceu em uma chuva de ouro. O pai de Danae, Acrísio, havia sido avisado pelo oráculo de Delfos que sua filha daria à luz um filho que o mataria. Para que isso fosse evitado, ele encerrou Danae e o filho em uma arca e jogou-os ao mar. Protegidos pelas divindades da água, eles foram levados às margens de Sérifos e para a proteção do rei Polidetes. O rei apaixo-nou-se por Danae e a perseguiu durante todos os anos da infância e adolescência de Perseu. Finalmente, Polidetes resolveu matar Perseu porque o jovem era contrário a seu casamento, acreditando que a sua mãe merecia algo melhor. Portanto, o rei enviou o jovem na aparente missão impossível de trazer-lhe a cabeça da terrível Medusa.

Em todo o seu trajeto, Perseu foi protegido pelas deusas. As Gréias, três bruxas que compartilhavam de um único olho, conheciam os segredos do futuro e disseram-lhe onde encontrar Medusa; Atena armou-o com um escudo mágico e foi dessa maneira que o jovem conseguiu matar a górgona, olhando o seu reflexo no escudo espelhado, a fim de proteger sua mãe. Ele levou consigo a cabeça da Medusa e em seu caminho de volta para Sérifos passou pela Etiópia, onde sal­vou a linda Andrômeda das garras de um monstro marinho. Ele ma­tou o monstro, libertou-a e casou-se com a jovem. Ele então voltou para Sérifos e matou Polidetes que, entrementes, tentara seduzir Danae. Isso feito, juntamente com sua mãe e sua esposa, Perseu empreendeu o caminho de volta para o lugar de seu nascimento onde Acrísio, o seu avô, tentara matá-lo.

Apesar de não procurar vingar-se dele deliberadamente, ele acabou matando-o acidentalmente, tor-nando-se, dessa forma, rei de Argos. Mas o lugar era repleto de memórias tristes então decidiu transferir-se para Tirinto, onde fun­dou uma gloriosa dinastia.

Perseu, o Cavaleiro de Copas, é a imagem do verdadeiro espírito romântico, o herói das mulheres em dificuldades, o adorador do amor, da beleza e da verdade, e o defensor dos altos ideais que busca incessantemente o amor perfeito que somente existe no espírito e que sempre parece estar muito próximo, no ser amado seguinte. O espírito romântico do Cavaleiro de Copas incorpora tudo o que é gentil, idealista e bom; não se trata de uma personalidade fraca, ao contrário, ele é capaz de sacrificar tudo em nome de seu ideal ou do ser amado.

Em certo sentido, essa é a imagem do estado de "estar apaixona­do", uma experiência que todo realista presume que, com a familia­ridade do casamento, com os filhos e as obrigações familiares, acabe morrendo, mas que todo romântico acredita que possa e deva perdu­rar para sempre. Quando isso não ocorre, o Cavaleiro de Copas. pode seguir em frente, buscando ainda a derradeira experiência do amor sagrado.

É claro que a santidade do Cavaleiro de Copas não exclui o sexo, mas os relacionamentos sexuais para essa figura devem necessaria­mente estar associados ao amor e ao êxtase espiritual. A "mera" satisfação física não lhe interessa. Historicamente, os ideais do amor romântico que floresceram na Idade Média refletem o espírito do Ca­valeiro de Copas. O jovem cavaleiro sempre adorava a sua amada de longe; ele não a contagiaria com seus desejos carnais, mas lhe escre­veria poesias e, muitas vezes, dedicaria a sua vida para protegê-la.

Perseu é diferente dos outros heróis em virtude, justamente, desse alto idealismo e veneração pelas mulheres. Diferentemente das figuras como Héracles que enfrenta seus desafios porque tenta expiar um pecado ou como Teseu que os enfrenta por serem excitantes, Perseu segue o seu destino pelo amor, principalmente começando pelo amor de sua mãe. Essa qualidade de venerar e de idealizar a mãe é característica do Cavaleiro de Copas, pois, apesar de sua força, ele se ajoelha aos pés de uma rainha uma mulher de maior poder do que ele.

Muitas vezes, a qualidade do amor representado pelo Cavaleiro de Copas contém esse elemento de adoração por uma pessoa diante da qual nos sentimos um tanto indignos - ou por uma pessoa que já esteja casada. Esse ainda não é um amor entre iguais, que encontra­remos mais adiante na Rainha e no Rei de Copas. Mas, à sua manei­ra, é amor e não deveria ser ridicularizado como adolescente ou ima­turo. Sem o Cavaleiro de Copas, viveríamos em um mundo insípido e desprovido de brilho.

Quando o Cavaleiro de Copas aparece em uma ^abertura de car­tas, indica que chegou o momento de o indivíduo experimentar essa dimensão inebriante e romântica do amor. Frequentemente, o Cava­leiro prevê uma proposta de casamento ou a experiência de uma paixão. Em outro nível, às vezes ele implica uma proposta artística, um relacionamento diferente, não menos exaltado e idealista. Ele ainda pode entrar na vida de um indivíduo como um jovem poético e sensível, um arauto do nosso próprio romantismo emergente.

A Rainha de Copas

A carta da Rainha de Copas retrata uma mulher misteriosamente linda, com longos cabelos pretos, um longo vestido verde-turquesa banhado pela água do rio a seus pés e uma coroa dourada. Está sentada em um trono dourado em cujos braços são entalhadas duas serpentes douradas. Na mão direita, ela segura uma taça dourada e, na esquerda, uma maçã. Seu olhar concentra-se no conteúdo da taça. Atrás dela, além dos férteis campos verdes, é possível ver o mar azul sob um céu claro.

Aqui, na carta da Rainha de Copas, deparamo-nos com as pro­fundezas estáveis, contidas e introvertidas do elemento água - o par­ticular mundo interior do sentimento abismal e derradeiramente in­sondável. O quadro é representado pela figura mitológica de Helena, com a qual nos encontramos na carta dos Namorados dos Arcanos Maiores e cuja beleza era tão grande que a Guerra de Tróia ocorreu por sua causa.

Helena era filha de Zeus e Leda e, ao atingir a idade adulta no palácio de seu padrasto, o rei Tíndaro de Esparta, todos os príncipes da Grécia, como seus pretendentes, ofereceram-lhe ricos presentes. Finalmente, casou-se com Menelau, que se tornou rei de Esparta após a morte de Tíndaro. Mas o casamento estava fadado a fracas­sar, pois Afrodite prometera a Paris, o príncipe troiano, a mais linda mulher do mundo se ele a escolhesse no concurso de beleza mencio­nado na carta dos Namorados. E Helena era essa mulher.

No devido tempo, Paris e Helena encontraram-se e se apaixona­ram, e Helena fugiu com ele. O insulto causado ao rei Menelau provo­cou a Guerra de Tróia, na qual Paris foi morto. Finalmente, a beleza de Helena atraiu para si três outros amantes, sem mencionar o herói Teseu, que a sequestrou quando ainda era adolescente. Todos esses outros amantes tiveram os seus favores enquanto ela ainda estava em Tróia e, dessa forma, Helena desfrutou de um período de dez anos de guerra. Quando os troianos foram derrotados, Menelau procurou Helena, a quem havia jurado matar por adultério. Mas, ao vê-la, se apaixonou novamente e a levou de volta a Esparta. Se ela lhe foi fiel ou não durante o resto da vida é algo que a Mitologia não revela.
Helena, a Rainha de Copas, é mais do que a imagem da atraente beleza feminina. Ela incorpora o hipnótico poder do mundo feminino dos sentimentos, um poder mágico e magnético que desafia a mera perfeição física.

Como na lenda, inúmeros homens perseguem Hele­na e, no entanto, ninguém sabe realmente, pela Mitologia, o que a própria Helena almejava ou que tipo de mulher era realmente. E como se ela mesma fosse água e todos os homens a percebessem no reflexo da profundeza de suas próprias almas. Ela é um código, um mistério, motivada por seus propósitos e sentimentos secretos. Pode ser considerada uma prostituta por oferecer os seus favores a tantos homens, dentre eles inimigos de sua própria terra natal.

Entretanto, temos a impressão de que, por mais apaixonada que estivesse, Helena somente faz o que gosta. Para ela, até a escolha de marido é uma opção livre, pois na história ela mostra o seu favo­ritismo por Menelau ao colocar uma coroa de flores em sua cabeça, um fato inusitado para uma mulher daquela época que, geralmente, era obrigada a se casar com a pessoa escolhida pelo pai ou pelos irmãos. Quando se cansa de Menelau, intrepidamente ela persegue a sua grande aventura amorosa com Paris, em vez de recorrer a encontros clandestinos. Independentemente de quem seja o homem que ama, ela se entrega totalmente a ele. Ela conquista os homens com facilidade, pois incorpora todas as íntimas fantasias inconscien­tes da mulher perfeita que eles sempre procuram.

A figura de Helena é tanto a de uma virgem como a de uma prostituta, uma calculadora e uma vítima. Resumindo, ela é um con­junto de paradoxos, pois, apesar de a lógica do coração ser indiscutí­vel, ela ainda desafia a análise racional e, frequentemente, enfrenta a própria moralidade. A Rainha de Copas possui uma característica indefinida e, no entanto, ela provoca problemas onde quer que esteja, ativando as profundezas dos outros e promovendo a ação e o conflito sem fazer absolutamente nada. Portanto, ela pode ser considerada uma imagem do inconsciente, perseguindo seus propósitos secretos sem conhecimento da mente consciente e levando o indivíduo a uma crise ou um conflito, e para uma intensa paixão e destino por meio de seu misterioso poder sedutor.

Quando a Rainha de Copas aparece em uma abertura de cartas, ela indica um período para o indivíduo encontrar o mundo profundo, desconhecido e paradoxal do sentimento em si mesmo. A Rainha de Copas pode entrar na vida do indivíduo como uma mulher misteriosa e enigmática, não necessariamente como uma evidente sedutora, mas estranhamente perturbadora e um catalisador para o surgimento de fantasias e sentimentos profundos que, até então, permaneciam ocultos à consciência. Ela pode aparecer na forma de um ser amado ou como rival; de qualquer maneira, esse encontro não é uma mera casualidade. Ao contrário, é o prenúncio do surgimento dessas qua­lidades da alma que se encontram no indivíduo.

Para a mulher que não tem consciência da Helena em si mesma e se identifica com os lados maternais ou práticos da feminilidade, a Rainha de Copas indica que é o momento certo para encontrá-la, mesmo que o catalisador seja a "outra mulher".
Para o homem que não tem consciência da profundeza de sua alma e baseia sua realidade no pensamento racional e nos fatos con­cretos, a Rainha de Copas anuncia um aprofundamento e desenvol­vimento da vida interior, quer o catalisador seja ou não uma mulher.

O Rei de Copas

A carta do Rei de Copas retrata um homem de pele clara, com cabelos e barba pretos, e grandes e compassivos olhos pretos. Ele veste uma túnica azul-escura e porta uma coroa dourada. Ele está sentado em um trono dourado cujos braços são entalhados com dois caranguejos dourados. Na mão direita, ele segura uma taça dourada e, na esquerda, uma lira. A seus pés, degraus levam para a água de uma enseada da qual emerge um caranguejo. Atrás dele, além do promontório em que está assentado o trono, é possível vislumbrar um mar revolto.

Na carta do Rei de Copas, deparamo-nos com a dimensão ativa e dinâmica da água que procura evidentemente formar relacionamen­tos, e até mesmo guiar e ajudar as pessoas. Esse quadro incorpora a figura mitológica de Orfeu, o cantor, que era sacerdote e curador, mas cuja história é triste e solitária, apesar de ter proporcionado con­solo aos seus semelhantes. Orfeu era filho do rei Eagro da Trácia e da musa Calíope, sendo o mais famoso poeta e músico que jamais existiu. Apolo presenteou-o com uma lira e as musas o ensinaram a tocar, de forma tal que ele não somente encantava as feras, mas fazia até as árvores e as pedras se moverem para seguir o som de suas músicas. Ele se juntou aos Argonautas na busca do Velocino de Ouro e a sua música os ajudou a superar muitas dificuldades. Ao voltar, ele casou-se com Eurídice e estabeleceu-se na Trácia.

Contudo, a sua vida não estava destinada a felicidade. Um dia, um homem procurou assaltar Eurídice no vale do rio Peneu e, ao tentar fugir, ela pisou em uma cobra que a picou, causando-lhe a morte. Mas Orfeu ousadamente desceu para o Submundo procuran­do trazê-la de volta. Ele não somente encantou o barqueiro Caronte; Cérbero, o cão de três cabeças; e os três Juízes dos Mortos, com a sua música melodiosa, como também conseguiu suspender tempora­riamente as torturas dos condenados e tanto consolou o coração ne­gro de Hades que obteve permissão de resgatar Eurídice ao mundo superior. Mas Hades exigiu uma condição: Orfeu não deveria olhar para trás enquanto ela não estivesse segura de volta à luz do Sol. Eurídice seguiu Orfeu pelas passagens escuras guiada pelo som de sua lira. Mas, no último momento, ele perdeu-a confiança e olhou para trás para ver se ela ainda o seguia e, dessa vez, perdeu-a para sempre.

A partir de então, Orfeu assumiu o papel de sacerdote, ensinando os mistérios e pregando os malefícios dos sacrifícios aos homens da Trácia. Porém, o deus Dionísio enciumou-se dele por causa de sua fama entre os homens, que começaram a adorá-lo como se fosse divino. O deus enviou as suas loucas Bacantes ao seu encalço e elas, furiosas que eram, reduziram-no a pedaços. Lamentando e chorando o ocorrido, as Musas recolheram seus restos mortais e os enterraram ao pé do Monte Olimpo, onde os rouxinóis agora cantam mais doce­mente do que em qualquer outro lugar do mundo.

Orfeu, o Rei de Copas, é a imagem do curador ferido, a figura que, pela compaixão e pela empatia, pode curar os outros, mas não pode curar a própria ferida no domínio do coração. De muitas ma­neiras, ele é o antigo equivalente dos modernos assistentes sociais e dos psicoterapeutas - o indivíduo que almeja estar em contato com o mundo do sentimento e procura incessantemente ajudar as pessoas a se relacionarem, mas ao qual, às vezes, falta confiança em sua vida pessoal e, portanto, não consegue alcançar a realização tão de­sejada.

O Rei de Copas coloca o relacionamento e o amor humanos aci­ma de tudo e empenha todos os seus esforços para iniciar e para preservar esse contato emocional. Entretanto, ele permanece curio­samente desconfortável e deve sempre olhar para trás para ver se o que iniciou continua acompanhando-o ainda intacto. E, assim, ele frequentemente perde o que mais deseja.

A figura é profundamente paradoxal, como se o elemento água - que, de muitas formas, é uma imagem do mundo feminino do sentimento - estivesse desconfortavelmente sentado na presença da imagem masculina e dinâmica do Rei. Juntas, ambas ficam estranhas e criam uma peculiar ambivalência.

O Rei de Copas é uma figura de temperamento inconstante e sensível, e muitas vezes de sentimento profundo e um raro dom em comunicar esse sentimento para afetar e influenciar as pessoas. Ele mesmo nunca abre mão do controle.

É por isso que as Bacantes de Dioniso, a multidão de mulheres extáticas que segue a corte do deus, o desmembram, pois, de certa forma, ele deve se tornar inofensivo e metaforicamente reduzido a pedaços, antes de se tornar algo além de conselheiro para as dores alheias.

O próprio Orfeu não se realiza realmente na vida, já que colocou em risco a oportunidade da felici­dade pessoal por meio de sua desconfiança na palavra de Hades. Isso, em si mesmo, nos mostra muito a respeito do Rei de Copas, pois, apesar de poder iniciar relacionamentos e falar constantemente a esse respeito, ele não confia totalmente no mundo do inconsciente que não pode enxergar. E, assim, o lugar de seu trono é perto da água, mas não pode mergulhar nela com medo de se afogar, o que significaria passar o controle para outra pessoa.

No sentido divinatório, quando o Rei de Copas aparece em uma abertura de cartas, indica que chegou o tempo de o indivíduo experi­mentar esse lado ambivalente de si mesmo - o dotado conselheiro e curador que pode empatizar e ajudar as pessoas, mas que não pode confiar na vida o suficiente para seguir o seu curso.

É característico o fato de que muitas pessoas, cuja profissão se relaciona com a as­sistência social, escolhem essa vocação pois foram feridas em rela­cionamentos pessoais, dos quais permanecem em controle para não serem profundamente feridas novamente.

Apesar de essa espécie de dinâmica poder ser uma grande contribuição para os outros, o indivíduo engana a si mesmo. Caso o Rei de Copas entre na vida do indivíduo na forma de uma pessoa que incorpore essas qualidades, então isso pode ser considerado como uma indicação de que seja o momento de encontrar-se com essa sua própria dimensão.
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O NAIPE DE PAUS

As Cartas Numeradas

A história de Jasão e os Argonautas e sua expedição à procura do Vclocino de Ouro c uma característica lenda heróica cheia de aven­tura e uma jornada corajosa ao desconhecido. Como a história é, na realidade, uma missão na qual o herói depende de suas faculdades além da vontade e do pensamento racional, a história de Jasão pode ser interpretada como uma descrição da imaginação criativa e de seu misterioso poder de provocar acontecimentos e de proporcionar soluções a partir dos níveis interiores que transcendem a nossa com­preensão consciente. Portanto, a história de Jasão é uma aventura específica que diz respeito ao tema central da imaginação humana.

A origem do Velocino de Ouro, o objetivo mágico da missão de Jasão, era a seguinte: Frixo e Hele, filhos de Atamas, que, por sua vez, era filho de Éolo e rei de Orcómenes, eram odiados pela ma­drasta Ino. Com suas próprias vidas sendo ameaçadas, eles fugiram montados em um fabuloso carneiro, presente de Zeus, o rei dos deu­ses. Esse carneiro era dotado de razão e de fala; ele tinha um velocino de ouro e podia voar. Durante a fuga, Hele caiu no mar, e o lugar em que caiu foi mais tarde chamado de Helesponto. Mas Frixo teve mais sorte e alcançou a região da Cólquida, no Mar Negro. Ele então sacrificou o carneiro a Zeus, o seu protetor, e ofereceu o Velocino de Ouro a Aetes, rei daquela região, que o pendurou em uma árvore e colocou um dragão para vigiá-lo.

Enquanto isso ocorria, em Iolkos, na Tessália, reinava o rei Pélias, que usurpara o trono de Eson, o seu irmão mais velho. O filho de Eson, Jasão, quanto pequeno, foi confiado aos cuidados do centauro Quíron para que ele o protegesse da ira de seu tio Pélias. Mais tarde, Quíron revelou a Jasão o segredo de sua origem e ele, imediatamen­te, foi ao tio e exigiu, por direito, o governo do reino. Pélias ficou assustado, pois um oráculo o havia advertido sobre um homem que o visitaria vestindo uma única sandália. E esse homem era justamente Jasão, que havia perdido uma de suas sandálias ao cruzar o rio. Por­tanto, Pélias prometeu a Jasão que concordaria com o seu pedido, mas com uma condição: que Jasão fosse à Cólquida e lhe trouxesse o Velocino de Ouro que pertencia ao santuário de Zeus, em Iolkos.

Por conseguinte, Jasão começou a construir um navio de 50 re­mos, o "Argo", no qual ele colocou um ramo do carvalho profético de Zeus. Ele juntou os heróis mais famosos, entre eles Castor e Pólux (os gémeos guerreiros), Héracles, Orfeu, o cantor, e o rei Teseu de Atenas, e esses destemidos aventureiros partiram em busca do fa­moso Velocino de Ouro. A viagem foi cheia de incidentes e eles foram obrigados a lutar contra monstros e os homens, assim como contra os elementos.

Finalmente, eles chegaram ao reino de Aetes, onde o Velocino de Ouro era guardado. Por sorte de Jasão, a filha do rei Aetes, a feiticeira Medeia, apaixonou-se por ele e o ajudou a vencer o dragão que vigiava o precioso troféu. O rei Aetes procurou impedir a fuga dos Argonautas com soldados ferozes que surgiram dos dentes do dragão que Jasão matara, mas os heróis conseguiram zarpar em seu navio, o "Argo", perseguidos de perto por Aetes. Medeia, que acompanhara Jasão e que não morria de amores pela família, cruelmente cortou seu irmão Absirto em pedaços e os espa­lhou pelo mar. Em sua dor, Aetes ordenou que a frota parasse para recolher os restos do corpo do herdeiro, e o "Argo" com sua tripula­ção pôde então seguir a viagem de volta para Iolkos sem esse per­calço.

Entretanto, a volta provou ser tão perigosa quanto a ida, e Jasão e seus companheiros tiveram de atravessar dois grandes e perigosos rochedos, Cila e Caríbdes, ao norte do Bósforo, cujas águas revoltas podiam esmagar um navio. Mas, finalmente, Jasão chegou a Iolkos com o Velocino de Ouro. Ali, ele descobriu que Pélias havia matado o seu pai Eson na certeza de que Jasão não voltaria de sua perigosa viagem.

Jasão vingou a morte de seu pai por meio de Medeia que, com seus feitiços, fez com que suas filhas o matassem. Em seguida, Jasão assumiu o reino de Iolkos. Mas a sua vitória provavelmente subiu-lhe à cabeça, pois, insatisfeito com um só reino, ele procurou outro - a coroa de Corinto -, casando-se com Creusa, a filha do rei Creon de Corinto. Isso fez com que Medeia se enfurecesse a ponto de vingar-se matando não somente Creusa, mas também os filhos que teve com Jasão.

Quanto a Jasão, alguns dizem que ele se enfastiou da vida e achou que o reino de Iolkos era um peso. Já velho e pensando constante­mente em seus dias de glória, ele ficava sentado à sombra do velho "Argo" que apodrecia. Um dia, a popa do navio despencou sobre ele, esmagando-o à morte.

O Ás de Paus

A carta Ás de Paus retrata um homem maduro de porte poderoso, barba e cabelos castanhos, uma coroa dourada na cabeça e uma túnica púrpura imperial. Ele está em pé diante de um cenário de altos picos nevados. Em seu ombro e descendo até o chão, a pele dourada de um carneiro. Em sua mão direita, ele segura o globo do mundo e, na esquerda, uma tocha acesa.

No Ás de Paus, encontramos novamente Zeus, rei dos deuses, o iniciador e a força motriz na lenda de Jasão e o Velocino de Ouro. Trata-se do Velocino sagrado do próprio Zeus que o herói deve res­gatar e é esse Velocino que serve de símbolo da visão criativa que nos impulsiona a afastar-nos do mundo seguro e convencional para um objetivo imaginado, por caminhos desconhecidos.

Zeus é um deus antigo e poderoso, e uma de suas mais antigas representações era a divindade com cabeça de carneiro, o invisível poder criativo que gerou o Universo manifestado. Em nosso interior, Zeus incorpora o invisível poder criativo da imaginação, que não pode ser compreendido, mas é responsável por todos os esforços e produ­tos concretos de nossas vidas. Não é somente o artista que usa a imaginação criativa, apesar de que no artista podemos enxergar o seu poder - e a sua impressionante autonomia - bem claramente.

Na carta do Imperador dos Arcanos Maiores, deparamo-nos com o lado patriarcal de Zeus, o Pai de Todos. No Ás de Paus, encontra­mos o seu espírito volátil e esse Zeus, tal como Afrodite, é uma força da Natureza. Todos temos essa força dentro de nós. Zeus é a capa­cidade de visualizar um potencial futuro diferente e maior do que a realidade concreta na qual nos encontramos - quer seja um plano para redecorar uma sala de estar ou o conceito para um novo negó­cio. Muitas pessoas não confiam nessa faculdade imaginativa, acre­ditando ser "boba" ou "infantil", ou não assumem o risco da ideia nova com medo de que fracasse. Mas o grande Zeus não é "bobo", nem tampouco "infantil", e o Ás de Paus que retrata o surgimento inicial da energia criativa primitiva é uma carta poderosa. A nova ideia ainda não foi formulada, mas há um profundo sentido de nervosismo e um sentimento de abertura na vida. É esse sentido que impulsiona Jasão para a sua missão do Velocino de Ouro. F.le poderia ter sim­plesmente deposto o seu tio Pélias e ficado em casa, em Iolkos. Portanto, o Ás de Paus implica o início da grande jornada no mundo da visão e da imaginação, no qual as limitações concretas são desa­fiadas e superadas e a vida, depois, nunca mais será igual.

No sentido divinalório, o As de Paus anuncia o surgimento da energia criativa, apesar de cia ainda não ter sido formulada como uma meta ou um projeto. O nervosismo e a insatisfação com as presentes circunstâncias são acompanhados de um forte sentimento de que coisas novas são possíveis. O indivíduo está prestes a embar­car em uma aventura em busca de um sonho.


O Dois de Paus

A carta Dois de Paus retrata o jovem Jasão em pé e pensativo diante da caverna do Centauro Quíron, antes de se dirigir ao encontro com seu tio para reivindicar a sua herança. Quíron é apenas visível na escuridão da caverna. Jasão veste uma túnica escarlate e segura duas tochas acesas nas mãos.

O Dois de Paus, como os Dois de todos os Arcanos Menores, polariza a energia primitiva do As e, aqui, essa polarização implica o aventureiro e a sua meta recem-estabeleeida. O nervosismo e o po­der ainda indefinidos do Ás começaram a aglutinar-se para formar uma visão particular, apesar de ainda não ser claro como essa visão ou meta poderá ser alcançada. Jasão nada sabia a respeito do Velocino de Ouro, mas agora ele já sabe, porque Quíron contou-lhe a sua história c do seu direito ao trono de Iolkos. Aqui, o sentimento de potencial cristalizou-se em algo definido, mesmo que a verdadeira aventura criativa do futuro de Jasão - a busca do Velocino de Ouro - somente tenha surgido depois que ele empreendeu o primeiro está­gio de sua jornada.

É assim que começam todos os empreendimentos: um pouco de cada vez. Uma ideia leva a outra e, muitas vezes, a primeira não é a derradeira, mas simplesmente um prelúdio. Entretanto, o prelúdio é suficiente para nos impulsionar para fora do santuário da caverna, cm razão do sentido de que poderíamos ter mais do que temos na realidade, ou sermos mais do que somos. A jornada de Jasão para Iolkos, o lugar de sua herança por direito, é entremeada de perigos, pois ele tem um inimigo que prazerosamente lhe tiraria a vida. Ele não pode prever o resultado nem tampouco se conseguirá ou fracas­sará em seu intento. Mas ele acredita em sua visão o suficiente para tentar e segura firmemente as tochas que simbolizam o fogo da ima­ginação. Do contrário, ele - ou nós - permaneceria tranquilo, mas para sempre reprimido cm sua caverna; seguro, mas nunca realizan­do os potenciais que são seus por direito; por outro lado, esses poten­ciais precisam de visão para que possam ser concretizados.

No sentido divinatório, o Dois de Paus anuncia a formulação de uma nova meta, ideia, objetivo ou projeto criativo. Essa nova ideia pode não ser a forma final do futuro, mas tem muito potencial e é suficientemente atrativa para incentivar o indivíduo a sair dos seus presentes limites, impulsionando-o para uma nova iniciativa. Aqui tudo depende da coragem de o indivíduo assumir a nova ideia e ter fé na­quela força criativa invisível que gerou a visão desse novo caminho.


O Três de Paus

A carta Três de Copas retrata Jasão recém-chegado à cidade de Iolkos. Ele veste uma única sandália, havendo perdido a outra ao cruzar o rio, confirmando dessa maneira o oráculo que profetizara o seu advento. De modo triunfal, na mão direita ele segura três tochas em chamas. Aos seus pés, está ajoelhado o usurpador, o rei Pélias, de barba e cabelos pretos e vestido em púrpura real, que lhe oferece com aparente humildade a coroa dourada, assumida ilegalmente.

O Três de Paus, como todos os Três dos Arcanos Menores, re­presenta o estágio inicial da inteireza. Aqui, trata-se da aparente in­tegralidade da ideia criativa original. Há motivo para comemorar e parece que tudo acontece conforme planejado. Jasão chegou ao local de sua herança c, vejam só, sem qualquer resistência aparente. Com medo do oráculo, Pélias parece querer abdicar voluntariamente ao trono que usurpou. E assim, muitas vezes o trabalho criativo parece ter um início fácil; os contatos certos aparecem como por mágica, os esquemas preliminares parecem favoráveis e a ideia parece adquirir substância, como se fosse por intervenção divina.

Entretanto, há um trabalho árduo pela frente e, frequentemente, novas ideias surgem nesse estágio - detalhes que não havíamos con­siderado, mas que envolverão atrasos, alterações de planos e muito mais esforço que o previsto. O Três de Paus implica um ponto alto, mas ainda há muito mais na sequência.

Agora Pélias conta a Jasão a respeito do Velocino de Ouro que se encontra em Cólquida, sugerindo, para os seus próprios planos malé­volos, que pouco significa ser rei de Iolkos sem a restauração do precioso Velocino de Ouro no santuário de Zeus. É nesse ponto, após a comemoração inicial, que muitos potenciais criativos caem por terra, pois o estágio dc inteireza inicial não c um resultado final e, sem a vontade do indivíduo em seguir um pouco além, a ideia não pode ser totalmente realizada. O mundo está cheio de planos incompletos c esquecidos em alguma gaveta, cujas 20 primeiras páginas tiveram um bom início. A mensagem aqui é: aproveitem a satisfação enquanto puderem, pois a ideia ainda não foi completada. A verda­deira confiança criativa somente pode ser encontrada caso a ideia seja testada, envolvendo o indivíduo ao máximo.

No sentido divinatório, o Três de Paus implica o estágio de inteire­za inicial de uma ideia ou de um projeto criativo. Bases seguras fo­ram estabelecidas, o entusiasmo é grande e há um sentimento de satisfação e otimismo a respeito do potencial futuro do projeto. Mas também há muito trabalho à frente e novos planos que devem ser engendrados antes de a ideia ser totalmente realizada.

O Quatro de Paus

A carta Quatro de Paus retrata Jasão e seus companheiros de viagem comemorando o fim da construção do grande navio Argo que os levará para a Cólquida em busca do Velocino de Ouro. O navio, com suas velas vermelhas e ostentando o emblema de um clarão de Sol dourado, aguarda a subida da maré. Ao redor da figura de Jasão, que veste uma túnica vermelha, estão cinco de seus heróicos companheiros: Héracles (com o qual nos deparamos na carta da Força dos Arcanos Maiores), portando a sua pele de leão e segurando uma tocha flamejante; Teseu, rei de Atenas (que encontraremos mais adiante na carta do Rei de Paus dos Arcanos Menores), com uma coroa dourada, vestido de vermelho-carmesim e segurando uma tocha flamejante; Castor e Pólux, os Gémeos Guerreiros (que encontraremos mais adiante na carta do Cavaleiro de Espadas), ambos portando uma armadura prateada e uma tocha flamejante; e Orfeu, o Cantor (com o qual nos deparamos na carta do Rei de Copas), trajando uma túnica azul e segurando a sua lira.

O Quatro de Paus é a carta da colheita e da recompensa. O desafio de uma nova ideia criativa foi enfrentado, muito trabalho foi feito e agora o indivíduo pode colher a sólida recompensa consegui­da por meio do esforço. Da mesma forma que o Três de Paus, essa carta implica algo que merece ser comemorado; mas, diferentemen­te do Três de Paus, ela possui uma base mais sólida e os benefícios já são evidentes.

O desafio de conquistar o Velocino de Ouro é assom­broso; como pode um homem sozinho navegar aos confins do mundo e com que meios? Jasão correspondeu a esse desafio cercando-se dos amigos para ajudá-lo a alcançar os seus objetivos. Todos esses heróis da Mitologia têm habilidades diferentes, de acordo com suas naturezas. Héracles tem a força; Teseu, um fogoso aventureiro como Jasão, a visão criativa; os Gémeos, a mente afiada; e Orfeu, o sentimento profundo e a empatia para desarmar qualquer inimi­go. Se considerarmos todos esses amigos como pessoas reais cujo apoio podemos angariar ou como recursos interiores dos quais pode­mos usufruir nesse estágio do processo de trabalho criativo, a ajuda está disponível e poderá permitir o alcance dos nossos objetivos. Com essa tripulação heróica c esse navio esplêndido, a satisfação de Jasão está garantida.

No sentido divinatório, o Quatro de Paus prevê um período de recompensa pelos esforços empreendidos. Uma nova ideia produziu frutos prematuros e o indivíduo tem todo o direito de comemorar os resultados concretos de seus esforços. Mas esse é tãosomente um estágio da jornada e logo o navio deverá zarpar para enfrentar os maiores desafios antes de atingir a meta final.

O Cinco de Paus

A carta Cinco de Paus retrata a luta de Jasão com o dragão que vigia o Velocino de Ouro. Enorme e coberto de escamas, o dragão sopra fogo de sua boca enquanto, com suas garras, ele segura o Velocino. Jasão o enfrenta com duas tochas flamejantes.Ao seu lado, está a feiticeira Medeia, filha do rei Aetes da Cólquida, que por ele se apaixonou e o ajuda nessa empreitada. Ela é linda com seu cabelo preto, trajando um vestido vermelho e segurando três tochas flamejantes.

O Cinco de Paus representa a luta. Aqui, a visão criativa colidiu com a realidade do mundo na forma do dragão que, na Mitologia, c a força primitiva da terra que resiste à mudança. 0 problema cm apli­car limites na vida prática - assim como as nossas próprias limita­ções da inércia regressiva - é o maior desafio para qualquer indiví­duo que deseja expressar o poder de sua imaginação criativa na vida real.

Essa luta com o dragão pode assumir a forma de problemas financeiros ou o problema de habilidades insuficientes (quando o in­divíduo precisa estudar ou treinar mais para dominar uma profissão), ou a dificuldade de um corpo fraco (pelo cansaço ou por doença, causado pelo excesso de esforço enquanto esteve impacientemente preso à visão), ou o dilema de ajustar a visão ao mercado prevale­cente (que inevitavelmente é conservador demais, cauteloso ou des­valorizado); essa carta simboliza dificuldades em nível concreto. Muitas vezes essas dificuldades concretas coincidem e são causadas pelo medo do insucesso e por uma profunda apatia que, em si mesmos, também fazem parte da imagem do dragão. Mas o dragão deve ser enfrentado, do contrário Jasão não poderá levar o Velocino, e os obstáculos que surgem durante o trabalho criativo - interno ou exter­no - não podem ser evitados. Inevitavelmente, a imaginação colidirá com a resistência da realidade e, de alguma forma, as duas deverão acomodar-se.

No sentido divinatório, o Cinco de Paus prevê um período de luta durante o qual o indivíduo deve enfrentar o dragão da realidade ma­terial para alcançar a sua meta. Assuntos cotidianos podem começar a dar errado e é preciso prestar mais atenção às exigências e aos limites da realidade concreta; o indivíduo também pode ficar preso a um humor depressivo ou apático. Comprometimentos devem ser as­sumidos, mantendo ao mesmo tempo a integridade da visão original.

O Seis de Paus

A carta Seis de Paus retrata Jasão vitorioso após a sua luta com o dragão. O herói levanta o Velocino de Ouro em triunfo. Atrás dele, seis dos seus amigos-heróis estão festejando, cada um segurando uma tocha acesa.

O Seis de Paus representa uma experiência de triunfo, de reco­nhecimento e de aclamação pública. A luta com o dragão já aconte­ceu e Jasão fez jus à sua recompensa; o Velocino está em suas mãos e seus amigos levantam suas tochas para honrá-lo em reconheci­mento. Essa carta representa um momento inebriante para o indiví­duo que se esforçou para expressar uma nova ideia ou uma visão criativa para as outras pessoas, pois é o momento cm que somos reco­nhecidos pela coletividade por nossos esforços. O empreendimento criativo foi aprovado não somente pelos nossos entes queridos, mas pelo mundo exterior, que na carta do Cinco de Paus apareceu, inicial­mente, como o terrível dragâo-terra que parecia frustrar todos os es­forços.

O estágio, um tanto inebriante, refletido pelo Seis de Paus pode assumir muitas formas, de acordo com o nível do objctivo e das aspi­rações do indivíduo. O atleta que treinou e se preparou durante can­sativos meses c até anos sabe disso quando vence uma competição, assim como o indivíduo que almeja uma promoção também o reco­nhece quando, finalmente, uma nova posição lhe é oferecida. O es­critor aprecia-o quando o seu livro é publicado e aclamado, c assim também o estudante, quando finalmente recebe o seu diploma. Inde­pendentemente da dimensão, a meta aqui é alcançada e reconhecida pelos outros. Portanto, o Seis de Paus é uma das cartas dos Arcanos Menores que mais proporciona satisfação individual, pois significa a validação pública de uma visão criativa que se iniciou em meio à ansiedade e à incerteza.

Mas até o Seis de Paus deve ceder o seu lugar para a carta seguinte, pois Jasão ainda não levou o Velocino de volta para Iolkos. O reconhecimento público provoca os seus próprios dilemas, apesar de representar um pico na vida criativa, pois a imaginação é fértil, e novos desafios - de forma particular a inveja e o sentido de compe­tição - podem surgir no momento do triunfo.

No sentido divinatório, o Seis de Paus prevê a aceitação pública e o reconhecimento de alguma espécie. Isso pode assumir a forma de uma promoção, uma qualificação ou o reconhecimento de algum tra­balho criativo.

O Sete de Paus

A carta Sete de Paus retrata a luta de Jasão com o rei Aetes da Cólquida, que ele deve derrotar para poder levar de volta o Velocino de Ouro. Jasão, segurando duas tochas flamejantes, luta com o rei que veste uma túnica vermelho-fogo e segura outra tocha flamejante. Dois dos amigos-heróis de Jasão - Héracles e Teseu - estão em combate com dois guerreiros do rei que, vestindo armaduras, surgiram dos dentes do dragão. Os dois heróis e os dois guerreiros do rei seguram tochas flamejantes.
Tal como o Cinco de Paus, o Sete de Paus retrata uma lula, mas aqui se trata de um combate entre homens, diferentemente do combate do herói contra o estranho dragão-terra. A visão criativa do Velocino de Ouro conquistado em triunfo das garras do dragão aqui leva para o que poderíamos chamar de pura competição, pois Aetes também quer o Velocino e está preparado para lutar por ele.

Portanto, o reconhecimento inerente ao Seis de Paus provoca a inevitável resposta: mais alguém quer o que trabalhamos tão arduamente para conseguir, e somos mergulhados em uma competição que nos desafia a empenhar mais esforços.

A mensagem é que não podemos permanecer estagnados com os nossos louros ou alguém virá para roubá-los. O problema da inveja e da competição é um fato da vida criativa que o indivíduo que trabalha nessa esfera deverá aceitar. A imaginação não somente concentra a visão em uma pessoa, mas também estimula a visão de outras. A competição é a companheira inevitável do sucesso criativo e, frequentemente, é o próprio medo de não consegui-lo que faz com que as pessoas desistam de tentar.

Na realidade, o desafio do Sete de Paus é uma prova de fé do próprio indivíduo. Quanto estamos dispostos a lutar pelo que já con­seguimos conquistar? Essa ameaça do "exterior" é um estímulo para a individualidade como também para a própria imaginação que deve­rá então criar novas e melhores formas. Em muitos aspectos, o rei Aetes tinha tanto direito ao Velocino de Ouro quanto Jasão, pois ele o possuiu antes. E essa é a falta de moral do mercado no qual não adianta ficar chorando: "Mas fui eu quem primeiro teve essa ideia!" Simplesmente devemos lutar para que a ideia funcione e para torná-la ainda melhor, pois ninguém consolará o perdedor que, certa vez, teve uma boa ideia.

No sentido divinatório, o Sete de Paus prevê uma luta pelas ideias criativas de outras pessoas - pura competição. O indivíduo é desa­fiado a melhorar e a desenvolver o seu projeto diante de um mundo invejoso e competitivo, e precisa aprender a valorizar a sua ambição e o seu instinto competitivo.

O Oito de Paus

A carta Oito de Paus retrata a viagem de volta de Jasão após a sua fuga bem-sucedida do irado rei Aetes. Podemos ver o Argo com todas as velas içadas e oito tochas acesas em sua ponte. Acompa­nhando o navio, golfinhos brincam nas ondas.

O Oito de Paus representa uma liberação de energia criativa de­pois que as ansiedades e os esforços do Sete de Paus foram supera­dos. O conflito estimula a imaginação e, se tivermos a capacidade de enfrentá-lo e atravessá-lo, sempre haverá um período de trégua quan­do os nossos planos prosseguem cm direção da meta a passos lar­gos, com um sentimento de leveza e de confiança. Essa liberação de energia somente surge das tensões que estão amainando, como se a confiança resultasse unicamente da superação de obstáculos.

A experiência da liberação de uma nova energia criativa pode ser vista em muitos esportes competitivos nos quais, após um conjunto de dificuldades, há um brusco impulso e o indivíduo ou a equipe se lança para a meta. Também é uma experiência comum para o pintor, o escritor, o ator e o músico - e qualquer artista criativo que atraves­sou o bloqueio e está "a caminho de casa". A euforia desse estado não surge simplesmente do nada; ela é o preço que pagamos ao en­frentar o desafio da competição e da dúvida, das quais nos levanta­mos com energia renovada. Isso nos diz algo a respeito de por que precisamos dos conflitos em nossas vidas para poder criar e porque tantos artistas parecem cortejar os conflitos e a competição com ou­tros. Há um misterioso relacionamento entre os trabalhos da imagi­nação criativa e a presença de um conflito saudável em nossas vidas.

A Mitologia também conta a respeito desse relacionamento, pois o deus Zeus, que preside a história de Jasão, existe em um estado de constante tensão e luta com a sua esposa Hera. Ela, incorporando as leis do matrimónio e da vida doméstica, eternamente o restringe e, ao mesmo tempo, desafia-o a criar. Da mesma forma, nós também pre­cisamos de restrição c de desafios para poder gozar o fluxo excitante da energia que o Oito de Paus retrata por meio da imagem de Jasão e de sua tripulação em seu caminho de volta para casa.

No sentido divinatório, o Oito de Paus anuncia um período de ação depois de um atraso ou de uma luta. Uma viagem pode ser implicada ou um longo trecho de frutífera atividade criativa durante o qual a imaginação flui desimpedida depois que as ansiedades e as tensões foram superadas ou resolvidas.

O Nove de Paus

O Nove de Paus retrata a prova final de Jasão e de seus Argonau­tas antes de o objetivo ser alcançado: a passagem pelos rochedos Cila e Caríbdes. Ao longe, a cidade de Iolkos pode ser vista com nove tochas flamejantes na praia. O navio, Argo, com as velas desmanteladas, encontra-se na passagem entre os rochedos, ainda em perigo. Em volta do navio desencadeia-se uma tempestade e o mar é turbulento.

O Nove de Paus é a carta da reserva de força. Ele retrata o tremendo poder da imaginação criativa, pois justamente quando sen­timos que não podemos mais lutar ou nos confrontamos com outra dificuldade, de alguma maneira, no meio desse estresse, as ideias e a energia se tomam disponíveis para enfrentar esse desafio final antes do objetivo.

As velas desmanteladas do Argo refletem o estado de exaustão de Jasão e de seus amigos, pois passaram por muitas pro­vas e dificuldades, e estão quase chegando em casa com o Velocino de Ouro. É exatamente nesse momento que, muitas vezes, o inevitá­vel desafio final surge diante das nossas ideias criativas e projetos. E sentimos, nesse momento, que simplesmente não podemos seguir em frente; a energia foi totalmente gasta e a força desgastada, tudo feito por nada.

Mas existe em nós algo misterioso e impressionante que é des­pertado para fazer frente a esse desafio e, então, presenciamos o aspecto mais perturbador e milagroso: o espírito criativo dos seres hu­manos. Apesar de não poder controlá-lo ou curvá-lo à nossa vontade -não mais do que os gregos antigos pudessem exigir da obediência de Zeus às leis humanas -, ele está disponível para ajudar-nos quando estivennos em nossos derradeiros limites. É aí que a nossa imaginação proporciona uma brusca injcção de vida, esperança e ideias novas. Se tivermos a vontade de tentar uma vez mais, a energia estará dis­ponível e o objetivo final poderá ser alcançado.

No sentido divinatório, o Nove de Paus anuncia um período em que, no ponto de exaustão, um desafio final surge para impedir que alcancemos a nossa meta; c quando, de alguma forma, encontramos misteriosamente a reserva de força para fazer frente ao desafio. Essa força somente é disponível quando todas as possibilidades fo­ram exauridas e parece ser invocada tanto pela nossa necessidade quanto pela nossa disponibilidade, apesar da exaustão, em tentar uma vez mais.

O Dez de Paus

A carta Dez de Paus retrata Jasão sentado diante dos destroços do navio Argo, totalmente exausto. Ele voltou vitorioso para Iolkos e está com um traje real vermelho e uma coroa dourada; aos seus pés, o Velocino de Ouro. Ele está curvado pelo peso das dez tochas flamejantes, distribuídas em suas costas e seus ombros.
O Dez de Paus retrata um estado de opressão. Jasão cumpriu o que havia planejado fazer, mas, ao final da história, ele é uma figura triste, sobrecarregada e esmagada pelas preocupações, enquanto o navio Argo, uma vez glorioso, o transportador de heróis, está em ruínas e apodrecendo.

A princípio é difícil entender por que essa lenda de visão e de feitos heróicos devesse culminar em uma ima­gem tão pesada e triste. Mas essa última carta do naipe de Paus revela algo importante a respeito da imaginação criativa: ela pode não funcionar mais quando fica presa sob o peso das responsabilida­des materiais.
Essa dura lição ocorre a muitas pessoas que se propõem a iniciar um negócio ou objetivam um sucesso criativo. Com o passar do tem­po e com o crescimento e a solidez do empreendimento, o espírito de aventura e o entusiasmo do começo parecem sumir. No processo de atingir a sua meta e recuperar o seu trono, Jasão deixou de valorizar os elementos imprevisíveis, como aqueles que Medeia personifica, e dessa maneira ele "se vendeu", esquecendo-se da ousadia e da de­senvoltura que primeiro o empurraram para a aventura. O poder volátil da imaginação não se deixa prender às formas pesadas c estru­turadas. Frequentemente, o tédio e a depressão acompanham a inte­gralidade de um trabalho criativo, pois, enquanto a tensão do esforço empenhado cm ideias criativas gera mais ideias, suas concretizações finais significam que a imaginação não pode mais se expressar livre­mente.

Portanto, a imaginação precisa de campos novos e o indivíduo que, como Jasão, se agarra às formas que construiu pode deparar-se com uma certa opressão e exaustão sem razões aparentes. Esse é o momento de abrir mão de alguma defesa e segurança para que a imaginação possa ser despertada com uma nova ideia, uma nova meta e uma nova aventura.

No sentido divinatório, o Dez de Paus sugere que o indivíduo está sobrecarregado e oprimido por ter assumido responsabilidades em demasia e além de sua capacidade de suportar. A imaginação foi sufocada pelas excessivas preocupações materiais e parte daquela jovem ousadia c disposição simplesmente se perdeu. E preciso re­nunciar a certas coisas para que o processo criativo possa ser reno­vado e um novo ciclo recomece.

As Cartas da Corte

O Pajem de Paus


A carta do Pajem de Paus retrata um garoto de cerca de 12 anos, de cabelos castanhos e vestindo uma túnica laranja. Ele monta um carneiro de pele dourada que voa sobre rios e campos verdes e amarelos, segurando uma tocha flamejante. A sua frente, o Sol aparece espalhando a sua luz alaranjada sobre o cenário.

Na carta do Pajem de Paus, deparamo-nos com o elemento Fogo em seu mais delicado e frágil início - os primeiros movimentos da inspiração criativa que, geralmente, se manifesta com certa excitabilidade e desconforto com as condições existentes. O Pajem é encenado por Frixo, com o qual já nos deparamos na história de Jasão e o Velocino de Ouro. Ele realmente inicia essa história, ape­sar de não ser um dos heróis que dela participam nem tampouco o deus que a preside, mas é quem leva o Velocino de Ouro para o distante reino da Cólquida e longe do perigo.

Frixo era filho do rei Atamas que, por ordem de Zeus, se casara com a mulher fantasma chamada Néfíle, que lhe deu dois filhos: o menino Frixo e a menina Hele. Finalmente, a mulher fantasma desa­pareceu c Atamas casou-se com uma mortal, Ino, que tinha ciúmes tanto de sua antecessora quanto das crianças. Ino convenceu as mulheres locais a ressecar secretamente as sementes de trigo para prejudicar a safra do grão c espalhou o comentário de que o oráculo de Delfos exigia o sacrifício de Frixo a Zeus para neutralizar a "mal­dição". Sua intenção era eliminar Frixo para que um filho seu pudes­se ser o herdeiro do trono.

Mas Zeus zangou-se com o fato de seu nome ler sido envolvido nessa tentativa de vingança e enviou o seu carneiro alado para sal­var Frixo, que montou o animal e puxou a irmã atrás dele. O carneiro dirigiu-se para o leste, em direção à Cólquida. Infelizmente, Hele perdeu o seu ponto de apoio e caiu no mar. Mas Frixo conseguiu chegar à Cólquida, onde sacrificou o carneiro a Zeus. Assim, Frixo é considerado o mensageiro e o cenógrafo que prepara a ação antes de os conhecidos heróis entrarem no palco da história.

Frixo, o Pajem de Paus, é a imagem daquele frágil início da ima­ginação criativa que muitas vezes encontra dificuldades entre as pes­soas mais realistas e nas exigências c responsabilidades do mundo material. O perigo no qual o garoto se encontra é característico do Pajem de Paus, pois essa figura, apesar de prometer um potencial futuro que ainda não emergiu, frequentemente se manifesta de início como uma irritabilidade e um nervosismo que provocam as pessoas e causam problemas na vida e no trabalho pessoal.

Mas Frixo é inocente e, portanto, Zeus o favorece concedendo-lhe um precioso presente. O Pajem de Paus marca o início do surgimento de uma nova ideia criativa, mas, como todos os Pajens dos Arcanos Menores, preci­sa de cuidados, proteção e orientação para que essa pequena chama não seja apagada pelo ciúme e pela inveja de outras pessoas ou pelo sentido de negatividade e de dúvida do próprio indivíduo. Zeus, rei dos deuses e incorporação do fogoso espírito criativo, é o único que en­xerga o verdadeiro valor de Frixo e é preciso que tenhamos algum contato com esse princípio arquetípico dentro de nós mesmos antes de poder valorizar esse delicado início da expressão imaginativa.

Frixo abre a história, mas não participa dela c desaparece diante do esplendor e do poder do herói Jasão. Isso também reflete algo a respeito do Pajem de Paus. Muitas vezes as primeiras ideias reílcti-das por essa carta são infantis e não representam suas formas finais, que acabam resultando em um importante esforço criativo.

Frequen­temente, o conceito inicial desaparece para ser substituído por algo melhor e mais sólido. Mas esse início permite que o processo seja ativado e, sem esses movimentos frágeis, nada seria desenvolvido na esfera das novas ideias criativas. Afinal, não é a personalidade de Frixo que nos chega pela Mitologia - ele é imaturo e jovem demais para realmente possuir uma personalidade -, mas é o seu papel de mensageiro e guardião inicial do Velocino de Ouro, que pertence a Zeus, o emblema do grande poder criativo do deus. Portanto, o Pa­jem de Paus pode não indicar um novo projeto ou ideia com sucesso garantido e a sua agitação pode ser facilmente descartada como "ingénua" ou "fantástica". Ele pode apontar para o poder da imagi­nação, avisando-nos que há muito mais no local do qual surgiu a primeira ideia.

No sentido divinatório, quando o Pajem de Paus aparece em uma abertura de cartas, ele anuncia que chegou o momento de o indivíduo descobrir esses impulsos de potencial criativo dentro dele mesmo. Muitas vezes podem se manifestar por um certo nervosismo no trabalho, um sentimento vago de insatisfação não suficientemente forte para motivar uma mudança c uma indicação de que temos a capacidade de expandir, de alguma forma, a própria vida.

As fantasias iniciais que acompanham essa agitação não têm o poder impulsionador do Ás de Paus e, no final, podem vir a ser impraticáveis ou impossíveis. Mas é importante que sejam consideradas seriamente, pois elas são os arautos de uma fonte mais forte de inspiração e precisam ser alimentadas c não rejeitadas, como se essa excitação fosse mera­mente "uma má fase" em vez do prenúncio de algo mais criativo.

O Cavaleiro de Paus

A carta do Cavaleiro de Paus retrata um exuberante jovem montado em um cavalo alado trajando uma túnica vermelha e uma armadura e um elmo dourados. Uma aljava de flechas em seu ombro e uma tocha flamejante em sua mão. O cavalo branco está voando enquanto embaixo, na terra, encontra-se um monstro que o jovem matou com uma flecha. O monstro tem cabeça de leão, corpo de carneiro e cauda de serpente.

Na carta do Cavaleiro de Paus, deparamo-nos com a volátil, mutá­vel e efervescente dimensão do elemento Fogo, que está em constante movimento e eternamente buscando novos desafios. Ele é encenado pela figura mitológica do herói Beierofonte, que domou o cavalo alado Pégaso, matou a monstruosa Quimera e, em seguida, foi arruinado por sua própria arrogância, que o levou a tentar voar para o Monte Olimpo, a morada dos deuses.

Beierofonte teve de fugir de Corinto, sua terra natal, por haver matado acidentalmente o seu próprio irmão Belero, e procurou santuá­rio na corte do rei Preto de Tirinto. Mas a esposa desse rei apaixonou-se pelo impetuoso e um tanto ambíguo rapaz e, ao ser rejeitada pelo jovem, o acusou diante do rei Preto de tentar seduzi-la. Acreditando na história da esposa, o rei decidiu destruí-lo.

Beierofonte foi então enviado em uma aparente missão fatal - a destruição da Quimera, um monstro que soprava fogo. Mas o jovem teve a sorte de ser ajudado por um adivinho que o instruiu cm como capturar e domar Pégaso. Beierofonte encontrou o cavalo e jogou sobre a sua cabeça uma rédea dourada que Atena lhe havia dado. Ele então venceu a Quimera voando sobre ela no dorso de Pégaso, enchendo-a de fle­chas e arremessando a sua lança, em cuja ponta havia colocado uma bola de chumbo, na boca do monstro; o fogo que a Quimera soprava derreteu o chumbo que, líquido, escorreu em sua garganta, matando-a.

Em vez de demonstrar a apropriada modéstia com respeito ao seu feito, Beierofonte tornou-se arrogante e prepotente. No auge de sua sorte, com presunção, tentou alcançar o Olimpo como se fosse imortal. Furioso, Zeus enviou uma vespa que picou Pégaso por baixo da cauda, fazendo-o empinar, desmontando Beierofonte, que des-pencou vergonhosamente para a terra.

Beierofonte, o Cavaleiro de Paus, é a imagem do desejo por novas e mais gloriosas aventuras. Essa figura ambivalente, muito criativa e desprendida da realidade, pois, apesar de ser a primeira a pressentir coisas novas, assim como a primeira a enfrentar um de­safio, por mais difícil que seja, também é a nossa tendência à presun­ção e a uma espécie de pretensão de que a boa sorte deva ser pro­porcionada pela vida, independentemente de quem sejamos ou do que façamos.
O Cavaleiro de Paus é um sedutor - as mulheres tendem a amá-lo, tal como a esposa do mitológico rei Preto -, mas ele não é confiável, pois nenhuma mulher consegue segurá-lo quando uma nova aventu­ra se apresenta. Ele é intuitivo c imaginativo, e, em termos moder­nos, poderíamos até chamá-lo de tendencioso, pois é o primeiro a assumir uma nova ideia, uma nova moda, um novo estilo de vida, bem antes de o restante da humanidade se conscientizar do valor dessa novidade.

O Cavaleiro de Paus não é um seguidor, como também não é um líder, pois é autocentrado demais e facilmente entediado para assu­mir a responsabilidade de dirigir outras pessoas. Como Dom Quixote do famoso épico de Cervantes, ele ataca moinhos de vento e assume causas ou desafios que podem não ser realmente relevantes, mas a respeito dos quais está preparado a fazer um enorme alarde só por­que parecem excitantes e o colocarão em destaque, como também o manterão ocupado durante um certo tempo.

O Cavaleiro de Paus é uma figura agradável e até adorável, e tendemos a perdoá-lo constantemente graças à sua natural positivi­dade, seu fascínio, sua ingenuidade e suas boas intenções. Mas, como dizem, o caminho para o inferno está cheio de boas intenções, e nem todas as intenções dessa figura são realmente concretizadas. Ele está constantemente engendrando novas ideias que podem ser filtradas, consideradas e processadas por meio de uma visão mais realista, seja pelo próprio indivíduo ou por outra pessoa mais em contato com a realidade do que esse fogoso e volátil Cavaleiro. Então, a sua força pode ser apreciada enquanto a sua fraqueza é tornada menos preju­dicial pela fria consideração dos fatos.

No sentido divinatório, quando o Cavaleiro de Paus aparece em uma abertura de cartas, ele anuncia que chegou o tempo para o indivíduo desenvolver as voláteis, exuberantes e aventurosas quali­dades incorporadas na figura de Belerofonte.

Muitas vezes, em nível divinatório, o Cavaleiro de Paus manifesta-se como uma mudança de residência, porque o indivíduo repentinamente se sente oprimido pelo ambiente no qual se encontra e sai à procura de campos mais amplos e verdes.

Algumas vezes o Cavaleiro de Paus penetra na vida das pessoas como um jovem encantador, interessante e um tan­to irresponsável, cheio de ideias novas e inspiradoras, mas que deve ser tratado com cuidado para que ele não nos leve a possíveis prejuí­zos. Se um desses indivíduos entrar em nossa esfera de relaciona­mentos, isso deve ser visto como um aviso de que essas qualidades estão tentando emergir de dentro de nós mesmos.


A Rainha de Paus

A carta da Rainha de Paus retrata uma linda e radiante mulher de cabelos castanhos, com um vestido amarelo e portando uma coroa dourada. Está sentada em um trono dourado cujos braços são entalhados com cabeças de leão e, aos seus pés, amarrada em uma corrente dourada, encontra-se uma leoa adormecida. Em sua mão, uma tocha flamejante e, ao seu redor, um cenário de ricos campos verdes e dourados sob um céu azul-vivo.

Na carta da Rainha de Paus, deparamo-nos com a dimensão es­tável, vivificante e fiel do elemento Fogo, que aquece, anima e inspi­ra. Ela incorpora a figura mitológica da rainha Penélope, esposa do famoso Ulisses de ítaca.

Ao nascer, Penélope foi jogada ao mar por ordem de seu pai, ícaro, que esperava por um filho. Mas um grupo de patos listrados de vermelho a levaram para a superfície, alimenta-ram-na e levaram-na à praia. Impressionado com esse feito, ícaro
atenuou a sua decepção percebendo que a sua jovem filha devia possuir um destino especial.

Quando o seu marido Ulisses embarcou para a Guerra de Tróia juntamente com os outros príncipes gregos, Penélope passou a go­vernar a ilha com o seu único filho Telêmaco para ajudá-la. Depois de um bom tempo, presumindo que Ulisses havia morrido, 112 jovens príncipes insolentes das ilhas ao redor de ítaca começaram a corte­jar Penélope, cada um esperando casar-se com ela para assumir o trono. Eles até decidiram, entre si, assassinar Telêmaco.

Quando pela primeira vez eles pediram que Penélope escolhesse um deles como marido, ela manteve a sua fé com a sua intuição e coração quanto à segurança de Ulisses e declarou que ele certamente devia estar vivo.

Mais tarde, sendo pressionada, ela prometeu uma decisão assim que terminasse a mortalha que estava preparando para o velho Laerte, o seu sogro. Mas ela levou três anos nessa tarefa, tecendo de dia e desfazendo o seu trabalho à noite, até que um dos pretendentes percebeu o estratagema.

Durante todo esse tempo, os príncipes inso­lentes ficaram desfrutando e divertindo-se no palácio de Ulisses, con­sumindo o seu alimento, bebendo o seu vinho e seduzindo as suas serviçais.

Nesse meio tempo, Ulisses chegou a ítaca depois de dez anos de andanças c viagens, disfarçado de mendigo porque havia sido infor­mado das atividades em seu palácio. Quando o tal "mendigo" ali apareceu, de início Penélope não o reconheceu, mas finalmente ele se revelou, destruiu os pretendentes insolentes e reuniu-se feliz à sua mulher.

Entretanto, alguns negam que Penélope permaneceu fiel a Ulisses durante a sua longa ausência, pois era uma mulher de espíri­to e imaginativa. Eles a acusam de gerar o deus Pan com Hermes, o Mensageiro, o que pode ou não ser verdade.

Penélope, a Rainha de Paus, é a imagem da fidelidade do coração e a força da imaginação criativa para apoiar os objetivos escolhidos do coração. Em um certo sentido, ela é a representação da esposa fiel, mas essa sua fidelidade não é necessariamente literal e algumas ver­sões do mito questionam essa técnica lealdade sexual. A fidelidade de Penélope surge em um nível muito mais profundo.

Durante a longa ausência de seu marido, ela não tinha como saber se ele estava vivo ou morto e, às vezes, seria obviamente mais conveniente escolher outro marido e seguir em frente com a sua vida. Mas, intuitivamente, ela sabe que Ulisses voltará e é essa qualidade de fé e uma lealdade que não surgem da moralidade forçada, mas de uma convicção inte­rior de que, ao final, tudo dará certo, que tornam Penélope uma figu­ra tão apropriada para ilustrar a Rainha de Paus.

Mas ela também é contida e estável, pois o seu fogo está controlado e torna-se o calor do aconchego, um centro ao qual muitos são atraídos - tal como os 112 pretendentes atraídos não somente pelo trono, mas também pela mulher.

A Rainha de Paus não sai correndo atrás de arcos-íris ou tenta voar para o Monte Olimpo - ideias mais típicas do Cavaleiro. Ela armazena a sua grande força e energia interiormente e as dedica às poucas coisas que conquistaram o seu coração. De alguma forma, a Rainha de Paus é uma imagem antiga daquela figura de "supermulher" que tantas mulheres modernas gostariam de ser: a mulher que é capaz de amar e de ser fiel em um relacionamento, mas que também possui a força, a ingenuidade, a criatividade e a energia incansável para reger o seu próprio mundo pelo seu próprio direito, sem precisar de um ombro forte sobre o qual se apoiar nem tampouco do rótulo socialmente aceito de "esposa" para que se tor­ne autoconfiante.

No sentido divinatório, quando a Rainha de Paus aparece em uma abertura de cartas, ela anuncia o momento de o indivíduo começar a desenvolver essas qualidades de aconchego, de constância, de fide­lidade e do sustento criativo de uma visão que Penélope tão propria­mente simboliza. A Rainha de Paus pode entrar em nossa vida como essa mesma mulher, imaginativa, atraente, aconchegante e fiel. Não é mero acaso se essa pessoa aparecer em nossa esfera de relacio­namentos; ao contrário, trata-se de um prenúncio de que o indivíduo está para encontrar esses atributos dentro dele mesmo.

O Rei de Paus

A carta do Rei de Paus retrata um homem elegante com barba e cabelos castanhos encaracolados. Ele veste uma roupa vermelha e uma coroa dourada na cabeça, e está sentado em um trono cujos braços são entalhados em formato de cabeças de carneiros douradas. Em sua mão direita, uma tocha flamejante. Ele está cercado de campos verdes nos quais é possível ver um carneiro parado. Atrás dele, uma linda cidade com colunas e pórticos brancos, coroada por uma acrópole.

Na carta do Rei de Paus, deparamo-nos com a dimensão ativa, dinâmica c senhorial do elemento Fogo, que simboliza a imaginação criativa. Ele é encenado pela figura mitológica do rei Tcseu de Ate­nas, com o qual nos encontramos brevemente nas cartas numeradas do naipe de Paus como um dos companheiros de Jasão em sua bus­ca ao Velocino de Ouro. O rei Teseu personifica o espírito excitante, extrovertido, impulsivo, mal-humorado e tremendamente contagioso da energia do Fogo. Sua mãe Etra era amada tanto pelo deus Poscidon quanto pelo rei Egeu de Atenas.

Teseu foi gerado conjuntamente pelos dois, mas desconheceu as suas origens até a idade de 16 anos, quando então saiu em busca de seu lugar como herdeiro de Egeu que resultou em uma jornada cheia de aventuras perigosas. Ele se ofere­ceu como um dos jovens tributos que eram enviados a Creta para alimentar o terrível Minotauro, convenceu a filha do rei Minos, Ariadne, a ajudá-lo a destruir o monstro e voltou para Atenas em triunfo, pas­sando não somente pela violenta luta com o monstro, mas também por fogo, terremoto, tumultos e mares terríveis.

Ao se tornar rei de Atenas no lugar de Egeu, ele teve muitas ideias de como unir as cidades gregas que viviam em constantes conflitos e, por meio de uma combinação de charme, expressão, pro­eza física, uma queda para a dramaticidade e uma mente brilhante, ele conseguiu convencer esses senhores independentes c altivos a se juntarem sob um único governo, o qual ele presidiu como Alto Rei.

As aventuras amorosas de Teseu foram variadas e turbulentas como os seus feitos guerreiros. Constante na perseguição de mulheres, ele finalmente escolheu a amazona Hipólita como a sua rainha, uma mulher guerreira que não se contentava em viver na tranquilidade doméstica e insistia em lutar a seu lado em todas as batalhas. Depois da morte dela, Teseu tornou-se um pirata dos mares, voltando perio­dicamente para Atenas, mas sempre perseguindo um novo sonho, uma nova conquista.

Casou-se novamente com Fedra, uma princesa de Creta que, infelizmente, se apaixonou por Hipólito, o íilho de Teseu com Hipólita. Esse dilema resultou no suicídio de Fedra e na morte de Hipólito. Depois disso, Teseu pcrdeu-se totalmente e acabou se jogando ao mar do alto de um rochedo.

Teseu, o Rei de Paus, é a imagem do fogoso entusiasmo que faz do indivíduo, homem ou mulher, um verdadeiro líder. Esse espírito ardente não é simplesmente impulso, intranquilidade e novas ideias -próprios do Cavaleiro de Paus - mas também é nobreza e força. Teseu não é tão-somente um homem impetuoso, mas um estrategis­ta e um modelador de eventos mundiais, pela sua visão e a força constante em manifestar essa visão, assim como a calorosa e conta­giosa personalidade que consegue convencer os outros de sua vali­dade. Ele não tolera limitações, é impaciente e tem a certeza de estar correto e, inquestionavelmente, é um mau perdedor.

O rei Teseu também é o epítome do homem chauvinista, e esta qualidade não se limita unicamente aos homens, podendo ser encon­trada em muitas mulheres. É o espírito exaltado da procura masculina por aventura, conflito e conquista e, ao mesmo tempo, subestimando as dimensões mais "comuns" da vida emocional e material - que parecem inferiores, tediosas e, portanto, não merecem perda de tempo e esforço.

O rei Teseu é irresistível por ser mais amplo que a vida, e essa qualidade da natureza humana, que tende a se mistificar, assim como "vender" uma grande visão aos outros, também é irresistível e dinâmica. Os indivíduos que possuem neles mesmos o espírito forte do Rei de Paus não se satisfazem com o fato de ser "meros" mor­tais. Deve haver uma causa a ser assumida, um dragão a ser destruí­do, um desafio a ser enfrentado, uma imperfeição no mundo que deve ser corrigida, pois o indivíduo que não está familiarizado com o espírito do Rei de Paus, na melhor das hipóteses, é encantador e fascinante e, na pior das hipóteses, autoritário, irritante, movido pelo poder e perigoso. Mas sem essa qualidade não há o espírito de luta, como também não há a capacidade de melhorar as próprias condi­ções ou as das outras pessoas, pois não existe visão nem confiança para transformar essa visão em realidade.

O Rei de Paus pode ser caloroso e excitante, mas ele é inquestionavelmente egoísta e esse egoísmo essencial, para muitas pessoas, parece ser repreensível e negativo. Mas o rei Teseu é a incorporação do verdadeiro herói, pois a sua convicção é sempre de que a humanidade poderia ser muito melhor do que é.

No sentido divinatório, quando o Rei de Paus aparece em uma abertura de cartas, ele anuncia o momento em que o indivíduo deve encontrar essa dimensão da personalidade que dá início a novas ideias, conseguindo "vendê-las" a outros e gerando uma mudança na pró­pria vida e no ambiente que o cerca.

É o espírito de liderança, a crença de que sempre há uma ideia melhor que vale a pena ser promulgada e trabalhada para que seja manifestada. Essa dimensão da vida pode aparecer na forma de um indivíduo impulsivo que entra em nosso círculo de relacionamentos, alguém que contagia os outros com a força de suas ideias.

O fato de esse indivíduo entrar em nossa vida não é por acaso, mas é o prenúncio da nossa necessidade de desenvolvimento.